Por Eduardo Pepe

 

“Enigmático, filme brasileiro faz recorte do pré-conceito situado num distópico sul do Brasil”

 

Único filme brasileiro selecionado para o Festival de Cannes 2020 e para Toronto 2020, “Casa de
Antiguidades” é o primeiro longa-metragem do diretor João Paulo Miranda Maria. E ele chega com
um projeto ousado. Com poucos diálogos e muitas imagens sugestivas, o filme acompanha o dia a
dia de Cristovam (Antonio Pitanga), um senhor idoso que vivia bem em Goiás, mas se muda para o
sul do Brasil por causa da empresa onde trabalha. A franquia do seu estado fecha e ele é convidado
para trabalhar na empresa sede. Chegando lá, a recepção não podia ser mais inóspita: num cenário
distópico, todas as pessoas são frias ou hostis a sua presença. Ele, o único negro da região, também
não fala alemão, idioma preferencial da empresa, cujo dono é alemão e a região parece ter sido
colônia alemã.

O diretor propõe uma narrativa sensorial que mais sugere do que explica. A trama flerta até mesmo
com o sobrenatural para falar sobre racismo, machismo, xenofobia, neo-nazismo e hereditariedade
negra. Quanto mais rejeitado Cristovam é, mais introspectivo e em conexão com suas origens ele
fica. Com enquadramentos poderosos, a direção de fotografia é um primor de construção estética.
Aquela cidade, asséptica e desumanizada, parece saída de um filme distópico de ficção cientifica. A
tal casa de antiguidades do título é a casa onde o personagem vai morar. Lá, ele guarda e preserva
suas raízes e memórias.

Foto de Divulgação

Antonio Pitanga, o protagonista, se destaca ao conseguir ser expressivo num papel de um homem
introspectivo que parece ter dificuldades de se expressar. Seu olhar perdido e sua fala parece sair
quase num rompante, sem muita articulação e quase sempre parecendo não corresponder ao que ele realmente queria dizer. Nesse sentido, lembra ao patriarca do clássico livro “Vidas Secas”, de
Graciliano Ramos. O ator está totalmente entregue ao papel e protagoniza até mesmo uma ousada
cena de sexo entre pessoas da terceira idade sem glamour ou tabus.

Falta ao filme um tantinho mais de dubiedade. Praticamente não há respiro ou nuance nos
personagens coadjuvantes, todos vistos praticamente iguais como neo-nazistas. E as únicas duas
personagens fogem disso, mesmo chegando a ter seus momentos de brilho, têm aparições curtas.
Um maior desenvolvido da relação com o protagonista daria maior dramaticidade e empatia ao
protagonista. Além do mais, mesmo com a ideia sendo acompanhar de perto o dia a dia daquele
trabalhador, algumas sequências parecem se alongar apenas por estética arrastando um pouco a
trama sem muita necessidade.

Foto de Divulgação

Ainda assim, é um filme sugestivo e enigmático o suficiente para gerar debates e múltiplas
interpretações. Merece elogios, sobretudo, por sua ousadia narrativa e estética. João Paulo parece
estar muito mais ligado a um estilo oriental de se contar uma história. O estilo sensorial, muito mais ligado a imagens do que a diálogos, remete a filmes do tailandês Apichatpong Weerasethakul, como Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010), ou mesmo do pernambucano Gabriel Mascaro, como seus longas “Ventos de Agosto” (2014) e “Boi Neon” (2015). Dessa forma, João Paulo Miranda Maria se mostra um diretor promissor, ousado e de poucas concessões que merece ser acompanhado.