Por Eduardo Pepe

 

 

“Filme pernambucano faz retrato vibrante e oportuno do sistema político brasileiro visto de baixo para cima”.

 

Chico Caixa (Thomas Aquino, o “Pacote” de “Bacurau”) trabalha no interior do sertão como
motorista de caminhão pipa levando água para as regiões que não possuem abastecimento.
Entretanto, há uma região específica que precisa muito e não consegue o cadastro oficial na
prefeitura para conseguir o abastecimento. Indignado com a situação, ele passa a levar água de
maneira irregular para aquela população. Buscando uma saída, Caixa vai buscar ajuda com seu
amigo de infância Joel (Rodrigo García), que é advogado. Sem ter muito como resolver a questão,
Joel o elogia falando que ele tem a mesma garra e indignação que o move. Com isso, ele o convida
para ser seu braço direito em sua campanha para concorrer a vereador. Demitido por causa do ato de
Robin Hood com o caminhão pipa, ele acaba aceitando o convite. Esse é o ponto de partida de
“Curral”, primeiro longa de ficção do diretor Marcelo Brennand.

Com essa trama simples, o diretor consegue fazer um retrato brilhante da política brasileira. Longe
de Brasília e de disputadas muito importantes, como presidente ou governador, é ao se voltar pela
disputada eleitoral de um vereador de uma pequena cidade do interior de Pernambuco que
chegamos ao âmago da política brasileira. Ao fechar sua trama para os conflitos de Caixa, um
homem que apenas queria um emprego e justiça social básica, se desenrola o conflito-base do jogo
político.

@Foto de Divulgação “Curral”

Vale ressaltar que o diretor é extremamente hábil em equilibrar seu registro político-social com sua
trama divertida e envolvente. Caixa é um personagem boa praça interpretado com gosto por
Thomas Aquino que conquista espectador com facilidade. Além de seus problemas no trabalho, ele
enfrenta questões pessoais, como a má relação com sua ex mulher, a dificuldade em pagar a pensão
de seu filho e um relacionamento indefinido com Mariana (Carla Salle).

É incrível o nível de naturalidade que o diretor consegue obter de todo o elenco e como consegue
construir personagens críveis e cativantes. É importante ressaltar que nem Caixa nem Joel, seu amigo, patrão e candidato a vereador, são propriamente mocinhos ou vilões. Tudo é muito bem
construído a partir das situações e necessidades dos personagens. Ajuda muito o talento dos atores e
os embates em cena entre Aquino e García são excelentes. O mesmo vale para a participação
especial do grande José Dumont, que no filme interpreta um prefeito em busca da reeleição. Vale
ressaltar também que há várias participações, incluindo de não atores profissionais, que se destacam
pelo grau de realismo e naturalidade. As cenas do candidato a vereador indo nos bairros buscar
votos com a população parecem cenas de documentário de tão reais.

@Foto de Divulgação “Curral”

O roteiro inteligente, marcado por diálogos afiados, desenvolve um estudo de personagem do
protagonista em um tom que equilibra drama, humor e suspense com desenvoltura. A narrativa
envolvente, por sua vez, se revela como um baita retrato do sistema político brasileiro. E assim se
forma “Curral”, um filme divertido, relevante e mordaz em iguais medidas.