Por Alysson Silva

 

Nota: 7,5/10

 

Cada vez mais vemos os produtores trazer para o público diversos projetos que são inovadores e até mesmo arriscados e eis que aqui na animação “Mate-o e Deixe Esta Cidade” é um deles. O gênero animação de fato não é uma novidade no país, visto que já temos as ótimas obras: “O Congresso Futurista”(2014), “Com Amor, Van Gogh” (2017) entre outros títulos. O que mais chama a atenção é por ser uma animação que usa o horror como seu manto principal e a forma de abordar a história e todos os seus elementos são bem arrebatadores para um filme desse nicho. Vejam só esse longa não é uma animação qualquer além dela ter um tema bem específico, ela usa o horror mesclando com o drama e traz uma narrativa bem visceral, adulta e contemporânea que vai ousar em vários momentos e te surpreender.

A história mostra o desenrolar do protagonista, que após ver as pessoas que ama partindo, Ele decide fugir desse lamento, se escondendo em um misto de memórias e mundos imaginários, onde os seus entes queridos ainda estão vivos. Os anos vão passando, e cada vez mais a sua mente vai criando vida e sua imaginação vai mais além, crescendo disparadamente com novas pessoas entrando e fazendo parte de sua vida. Uma cidade se instala em seu mundo e diversos heróis dos livros e outros que não fazem parte de seu convívio surgem no misto de surpresas e invasões, para morar com ele, nesse lugar. Quando a estrela da animação, descobre que todos envelheceram e que a juventude eterna não é para sempre, ele toma a decisão de retornar ao mundo real, impulsionado pelos personagens que vivem em seus imaginários e ter a sua vida normal de volta.  

Foto de Divulgação

A direção ficou por conta de Mariusz Wilczynski, que é um diretor novo no mercado, onde ele anteriormente trabalhou em alguns curtas-metragens e aqui faz a sua estreia em um longa-metragem. Dirigir uma animação realmente não é fácil por se tratar de elementos e personagens que não são reais mas levando-se em consideração nas dublagens, temos um comando bem acertado e correto que trouxe segmentos fortes e firmes, que deu o tom de horror que a história pedia e conseguiu fazer da história uma animação adulta e bem madura.

O roteiro a cargo de Agnieszka Scibior e também por Mariusz traz uma animação totalmente adulta, ousada e diferente. Vemos os personagens no seu dia-a-dia seja no mercado com uma cliente que quer fazer compras, uma mulher que ama cantar e detesta ser interrompida quando está cantando, passageiros dentro do trem observando as pessoas a sua volta e passagens por um hospital. Todos esses personagens estão nesse mundo imaginário e o expectador é o olho que tudo vê e analisa.

Foto de Divulgação

Os produtores trazem uma animação com desenhos feitos a caneta, com um árduo trabalho de desenho, montagem e edição. Cada frame feito totalmente a mão e sem muitas edições. Aqui não vemos muito desenhos bonitinhos e coloridos, os personagens são apresentados de forma nua e crua , com cores escuras e opacas. Spoilers a seguir: Somos apresentados a homens nus decapitados, mostrando cenas bem fortes e algumas difíceis de se assistir por seu apelo pesado e frio. Não é uma animação das mais convencionais ela tem o seu diferencial e isso faz dela ser chocante ao mesmo tempo que marcante.

A narrativa é repleta de cenas de ação, leva o nosso imaginário para acontecimentos bizarros e surreais. Além de abordar elementos de terror, a história traz outros temas bem relevantes. Uma das personagens ela não se ama, e se sente inferior aos outros, isso nos traz um assunto muito recorrente na vida real, onde muitas pessoas ao redor do mundo se sentem infelizes com o seu corpo ou rosto e ficam com baixa autoestima o que pode desencadear uma possível depressão. Outro ponto é se achar desmerecedor do amor e de que alguém possa amá-la e isso é algo muito sério e que gostei de ver ser debatido dentro do filme. Uma pessoa que se auto despreza e se auto sabota de fato tem medo e traumas não resolvidos do passado.

Foto de Divulgação

O enredo mescla a vida desses personagens que passam por diversas situações, mas um elemento que se faz presente é o bonde, que ele é o fio condutor para levar e trazer as histórias, como se fosse um personagem próprio. Em certos momentos as memórias do protagonista se confundem entre a realidade dos fatos e com o seu imaginário. Outro tema que é citado na narrativa é a homofobia velada, onde os pais de uma criança querem educa-la usando palavras que hoje em dia são ofensa para os gays como “viado” e que esse tipo de educação não é mais usada. E devemos ter a ciência e consciência de discernir o que é o certo e o que é errado, não sendo mais aceito esse tipo de atitudes na vida real.

“Kill It and Leave This Town” no título original é uma animação, que choca e que surpreende, e traz um certo incômodo para quem está assistindo em alguns momentos. E deve ter sido essa a intenção do roteirista em contar uma história que prendesse a atenção do público e que causasse um certo impacto. Mesmo tendo tramas de apelo psicológico, traz também momentos de alegria, felicidade e romance quando somos apresentados a um casal em uma bela cena de primeiro encontro, onde temos um belo musical com o cantor sendo representado cantando ao vivo e os personagens envoltos da música e da dança. Com cenas de envolvimento amoroso  em romances encenados num barco, com a lua iluminando o mar e uma música romântica e cenas de sexo. Além de contar sobre relações e dramas familiares que nos fala sobre o amor e amizade.  Realmente essa animação não foi feita e nem deve ser assistida por crianças ou por menores de 16 anos, por conta de suas cenas pesadas e que contem muita violência e horror.

Foto de Divulgação

A Polônia cada vez mais está certa em investir no mercado de animações e no audiovisual e mesmo que alguns elementos usados no roteiro, tenham ficado abaixo do esperado, é um bom filme que deve ser assistido e que te fará ficar pensando nele horas após ser assistido e trará muitos debates sobre os temas abordados que merecem ser debatidos.