Por Eduardo Pepe

 

“Em contexto quase pós-apocalíptico, longa mexicano imagina a polarização política até as últimas consequências”

 

 

Filme de Abertura – Mostra Internacional de São Paulo.

 

Um país dividido, milícias fazendo a festa, manifestações políticas, crise econômica, instabilidade
democrática, desigualdade social… Lembra algum lugar? Pois é, o recorte do México feito pelo
diretor Michel Franco remete a uma realidade familiar para o Brasil e para a América Latina como
um todo. É importante ressaltar que quanto menos informações sobre a trama o espectador souber,
melhor. Basta saber que há uma família realizando um casamento em meio a alta sociedade e que as coisas começam a desandar com a chegada de um antigo funcionário na festa sem avisar ou ser
convidado.

A primeira metade do filme, avassaladora, acontece toda em tempo real, com pequenos problemas
ganhando uma escala progressiva. É um primor assombroso de realização. A segunda parte, por sua vez, busca explicar detalhes e consequências sócio-políticas do dia fatídico do casamento. O diretor Michel Franco não é conhecido pelas sutilezas e, sim, por ir até as últimas consequências.

Foto de Divulgação

Em “Nova Ordem”, não é diferente. Essencialmente um thriller, o filme alcança nuances quase de
ficção-científica ao jogar o espectador numa realidade extrema. Por um lado, parece um cenário
quase pós-apocalíptico, por outro, é bastante familiar, em especial, para os países latino-americanos ou do Oriente Médio.

A segunda parte do filme é um tanto mais óbvia. Não que não tenha força, porém, na comparação
com a saga do dia do casamento, dilui um pouco em ritmo e em relação ao grande impacto inicial.
Ainda assim, feche a saga com coerência. Franco propõe uma narrativa imersiva que pensa lá na
frente: e se a polarização política fosse até as últimas consequências, para quem isso seria bom?
Para Franco, não seria bom para ninguém. Nesse sentido, o filme é um aviso – ou um pedido de
socorro.