Por Eduardo Pepe

 

“Bem resolvida, adaptação de livro de Clarice Lispector é um drama romântico sensível e envolvente”

 

A escritora Clarice Lispector não é das autoras mais adaptadas. Tirando “A Hora da Estrela” (1985),
dirigido por Suzana Amaral, é difícil achar uma obra da escritora que tenha se eternizado em
formato audio-visual. Com um texto que sempre privilegiou mais o psicológico e o fluxo de
pensamento do que a narrativa convencional, ela não é das autoras mais fáceis de se adaptar.

Ano que vem sai a adaptação do romance “A Paixão Segundo GH”, dirigido por Luiz Fernando
Carvalho, e, esse ano, a diretora Marcela Lordy apresenta a adaptação do livro Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Estreante em longas-metragens de ficção, a cineasta demonstra segurança e equilíbrio. Ela trouxe a história para os tempos atuais e preservou a essência da trama: Lóri (Simone Spoladore), uma professora de primário, é uma mulher introspectiva e fechada para relacionamentos mais profundos. Um dia, ela conhece e se interessa por Ulisses (Javier Drolas), um professor de filosofia. Apesar do interesse de ambos, a tensão entre os dois por terem objetivos, pensamentos e desejos diferentes leva a um conturbado processo de aprendizagem e de autodescoberta.

A diretora conseguiu realizar uma bem resolvida adaptação mantendo a trama do livro dentro de
uma narrativa convencional e ainda achar soluções criativas pra fazer citações orgânicas aqui e ali
do livro, que prega pelo tom poético e reflexivo, como é comum na obra literária de Clarice.

Foto de Divulgação

O resultado é um drama psicólogo que flerta com o romance que tem no eixo de seu sucesso a atuação de Simone Spoladore. Totalmente entregue ao papel, a atriz brilha em cena construindo sua Lóri com a força dramática e psicológica de uma legítima heroína de Clarice Lispector. A personagem é misteriosa e até contraditória em alguns momentos, mas nunca se torna incompreensível ou se distancia do espectador.

Os personagens que a rodam, como o irmão, os alunos da escola e a melhor amiga, assim como os
pretendentes amorosos, também são bem desenvolvidos e todos ganham seu momento de destaque. Vale destacar especialmente o ator argentino Javier Drolas, conhecido pelo filme “Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual (2011), que compõe seu Ulisses como um intelectual entre o esnobe e o irresistível. Mas claro que, no fim das contas, é a essência feminina da personagem central de Simone que domina a narrativa sobre o se abrir para a vida e para o amor. Temas esses que permanecem tão atuais hoje quanto em 1969, ano que o livro foi lançado.