Por Alysson Silva

 

Nota: 6,5/10

 

Entra ano e sai ano, somos apresentados a novos filmes que envolvem temática de robôs, androides e inteligência artificial. Filmes como “Eu Robô”, “Ela”, Ex-Machina”, Jexi- Um celular sem filtro”, A.X.L. O Cão Robô” entre outros, seguem os mesmos moldes de trazer elementos da tecnologia e a inteligência artificiais. O longa austríaco “O Problema de Nascer” foi vencedor do Prêmio Especial do Júri da seção Encontros no Festival de Berlim e também foi exibido no Festival de San Sebastián. Aqui a história vai pelo caminho inverso ao usar segmentos que envolvem o avanço tecnológico em criar androides que possam fazer o que você quiser basta programá-los por um celular, para que eles possam ter memórias, feições e uma vida normal junto de seus donos.

Somos apresentados a observar a vida de Elli que é uma menina de 10 anos, onde podemos acompanhar o seu dia-a-dia onde ela aproveita para ter contato com as folhas, árvores, terra e a própria natureza. Como toda criança adora estar na piscina e ter contato com a água. Ela mora com um homem a quem chama de pai e seu protetor. Durante o dia, os dois nadam na piscina, curtem a cia um do outro e à noite ele a coloca na cama. Ela compartilha suas memórias e qualquer outra mensagem que o homem a programe para lembrar e dizer. Memórias que tem um significado para ele, mas que não dizem nada para ela, a deixando confusa e fria. No entanto, em uma determinada noite a garota resolve se adentrar no meio da floresta seguindo um eco que se desvanece, e que como se quisesse chamá-la. Essa é uma história de uma máquina e os fantasmas que todos carregamos dentro de nós e que irão trazer uma série de consequências e devaneios.

Foto de Divulgação

A direção por Sandra Wollner que traz o seu segundo trabalho nos cinemas, aqui ela volta a abordar um drama, mas com elementos Sci-Fi. Seu comando faz o filme ser forte, frio e calculista. Ela consegue trazer paras as telas o seu objetivo que é contar essa história cheia de surrealismo, e um bom conjunto de ações que causarão no espectador uma certa ânsia, incômodo e indigestão. No campo das atuações temos um elenco enxuto, com poucos personagens. O ator Dominik Warta que dá vida ao pai da menina traz um significado na narrativa, mesmo que seja em certos momentos seja intragável, sua atuação sem grandes surpresas, sendo apenas ok. Sua parceira de cena a protagonista Elli chamada de Lena Watson que na verdade se trata de um pseudônimo para preservar a identidade da atriz, todas as suas cenas a atriz usou uma capa de plástico no seu rosto e uma peruca para que o expectador não a reconhecesse a pedido de sua família e por conta dos elementos usados no enredo que não seria de bom tom e grado. Completando o elenco temos a atriz Ingrid Burkhard que com todo o seu carisma, talento e experiência trouxe uma boa atuação e um bom chamariz para sua conexão com a história.

O roteiro escrito por Sandra Wollner e com colaboração de Roderick Warich que possui em seus trabalhos o gosto por histórias que abordem drama, crime, ficção e aqui eles trazem um narrativa que além de abordar esses gêneros, mesclam por vários temas que em alguns momentos o público se sente perdido e confuso nessa história não linear que eles querem contar. Veja bem é super louvável apresentar um conjunto de significados para dentro do enredo, quando esse sabe onde quer chegar e aqui a impressão que fica é que os roteiristas queriam um filme difícil, pesado e que incomodasse quem está assistindo.

Foto de Divulgação

A história nos leva a Elli que é uma menina, e que vive com seu suposto pai. Conforme vamos adentrando dentro da vida dessa garota percebemos que de fato ela não é uma menina comum e sim uma androide, mas ao contrário de outros filmes, aqui o seu intuito principal é ser domesticada e ser usada como teor sexual. Spoilers: O longa nos dá a entender que se passa em um futuro onde uma pessoa pode criar e montar um robô onde o seu dono pode usá-lo como fetiche e para atender os seus mais desejo sexuais. O Pai da criança na verdade possui uma relação que abrange muito mais do que amor fraternal, e percebemos que ele a usa como boneca sexual. Ele apesar de aparentar ser um pai presente, acolhedor e amável na verdade, ele programou para que ela sentisse o que ele queria que ela sentisse, plantando nela suas memórias, emoções, recordações do passado para suprir nele uma necessidade de preencher uma lacuna e uma perda ao qual ele teve em seu passado, mesmo que não fique explicado essa informação.

A narrativa além de fazer alusão a pedofilia, mesmo que não seja mostrada, causa um certo estranhamento e um impacto negativo ao contar esse roteiro, mesmo que hoje em dia o tema cause bastante revolta nas pessoas, o que é bastante compreensível. Qual pessoa que gostaria de assistir um filme onde um homem usa uma criança para satisfazer os seus desejos sexuais. Causa uma certa revolta, inquietação e incomodo por justamente saber que está ali, mesmo que subtendido. O longa causou um rebuliço por onde passou por justamente possuir esses elementos em sua história que gerou um baque não só para o público como para os críticos. Em algumas cenas é possível ver a atriz mirim sem roupa e o “Pai” dela nu fazendo justamente uma conexão com o que já aconteceu e ficando obvio que eles tiveram relações sexuais. Todas as cenas as quais a atriz aparece sem roupa, na verdade, ela estava de biquíni e o mesmo foi retirado digitalmente. Além de estar oculta por camadas de pele , peruca e efeitos especiais para atriz não ser reconhecida e para a polêmica não ser ainda maior.

Foto de Divulgação

No segundo ato da história a protagonista sai pela floresta adentro em busca de respostas e sai vagando descalça, de moletom e sem rumo pela rodovia que dá acesso a cidade mais próxima, até que ela é encontrada por um homem passando e a dá carona. Ele ao perceber que se trata de uma androide a leva para a casa de sua mãe, mesmo a menina pedindo para ser levada para o seu verdadeiro dono. A garota passa a conviver com essa senhora que já tem uma certa idade e tem traumas e conflitos de seu passado que a atormentam dia após dia. Ao não conviver bem com essa nova criatura, ela reclama com seu filho que resolveu desmontá-la e criar o menino Emil o irmão da mãe que morreu há 60 anos atrás. Em meio tudo isso vemos o desabrochar do garoto se identificando como homem ao qual está programado com as novas histórias que envolvem a trágica morte do Emil real e todas as consequências e traumas que a personagem vem sofrendo, mesmo após todos esses anos.

Ao mesmo tempo somos apresentados a verdadeira Elli(Jana McKinnon) que desapareceu há 10 anos atrás sem deixar pistas, foi vista pelas ruas já com um possível rosto de uma jovem entrando na fase adulta, o que coloca o caso que até então estava sem resposta em evidência novamente. Em outro momento vemos o primeiro dono da Elli androide ir atrás dela, mesmo que ele já a tenha visto como Emil e não reconhecê-la, mas o robô o reconhece, mesmo que de longe, o que mostra que todas as suas histórias que foram programadas em um primeiro momento ainda estão ali dentro dele, mesclando com a programação nova, mesmo após a mudança de gênero. O tema identidade de gênero é abordado mesmo que singela e com pouco destaque se dissolvendo com o decorrer da narrativa.

Foto de Divulgação

The Trouble With Being Born no original fazendo um ligação com o androide nascer e ser construído e desempenhar o seu papel como ser domesticado por seu dono. O Problema de nascer é um filme de arte, que possui diversos assuntos polêmicos e que vão gerar um certo desconforto, angústia, inquietude e raiva em alguns momentos. Definitivamente não é um filme fácil de se consumido por usar de elementos de difícil aceitação, além de que em diversos momentos ser confuso e com muita simbologia e significados que te jogam mais perguntas do que respostas. O espectador fica rodando em círculos com muitas coisas acontecendo e fazendo uma alusão do que pode ser realidade, uma criação inventada ou uma loucura desvairada. O roteiro acaba passando por vários gêneros não só o drama, como também o suspense psicológico, horror e o criminal. Os criadores quiseram trazer algo novo, mesmo que com o uso de elementos já usados anteriormente nos cinemas, mas que pecaram em deixar muitas perguntas sem respostas como a origem da androide, a verdadeira Elli e o passado por trás de Emil.

O ato final mesmo que traga certos impactos, uma leve dose de sci-fi, adrenalina e ação, ele termina de uma forma simples que dá a impressão de que Sandra e Roderick só queriam era trazer um desconforto, burburinho e te provocar . Além da sociedade que tanto crítica a pedofilia e todos os seus segmentos, sem dúvida é uma história que traz algumas mensagens, mesmo que sejam incomodas, que te fará pensar e de fato trará reações de diversas formas que lhe levará a um conjunto de assuntos e debates após o longa acabar. É um filme de discussão, criado para trazer conversas e reflexões. Analisar não só a narrativa, mas no geral todos os seus elementos que te fará sentir que não é um longa que agradará todo mundo e que na verdade não é um filme para você ver com sua família, mas de preferencia sozinho, para estar atento aos detalhes e simbologias para não ficar com mais dúvidas ainda, do que as que os autores já nos deixaram. Esteja atento de que aqui você deve assistir sem filtro, porque a raiva e a possível revolta pode ser menor e com menos impacto.