Por Alysson Silva

 

Nota: 7,5/10

 

No mundo do cinema já fomos apresentados a diversos filmes que envolvem o jornalismo, sensacionalismo, reportagens em tempo real e o jornalismo investigativo. Longas como “O Abutre”, “O Mensageiro”, “Conspiração e Poder”, “Intrigas de Estado”, “Spotlight: Segredos Revelados” no qual ganhou o Oscar de Melhor Filme e o mais recente “O Escândalo” , são alguns dos inúmeros títulos que abordam essa temática. Aqui somos apresentados a uma história que pode mesclar ficção, mistério e documentário ao abordar um enredo sobre um fotojornalista em busca de ir até um lugar por onde passou um possível terremoto e fazer uma cobertura fotográfica, mas até qual ponto devemos ir em busca de um furo de reportagem? Será que vale todo o esforço correr atrás de uma notícia que até então nem mesmo ele sabe se é verídica e é disso que se trata o longa da Índia “O Tremor” escrito e dirigido por Balaji Vembu Chelli.

A trama mostra o desenrolar da investigação do fotojornalista (Rajeev Anand) que recebe a sua primeira missão e a grande chance chance de sua vida de cobrir pela primeira vez uma grande matéria para a empresa ao qual ele trabalha e a pedido de seu superior ele vai de carro até o vilarejo de kookal, que se trata de uma pequena vila na Índia que segundo as informações fornecidas para ele, foi atingida por um terremoto, e para capturar as imagens do acontecido, ele corre para chegar ao lugar antes dos outros jornalistas. Após um longo caminho pelas estradas, florestas e montanhas ele chega lá, porém, encontra apenas locais vazios e com poucas pessoas, que não sabem ou fingem não saber sobre o terremoto. O fotógrafo passa então a explorar a região das montanhas em busca de respostas, e à medida em que o mistério continua a lhe atormentar, a neblina que ele enfrenta fica cada vez mais densa e difícil de chegar ao tão esperado destino final.

Em seu primeiro trabalho em longas metragens o diretor Balaji Vembu Chelli teve o êxito em trazer uma história investigativa e que aguça os olhos do expectador. Ele usa de artifícios para montar uma filmagem que beira a documental, mas com muito mistério e simbologias. Possui um comando seguro e eficaz ao nos manter presentes e ligados no que acontece na narrativa, mesmo que de forma gradual e mais lenta. Balaji ainda teve a dura e tarefa árdua de comandar apenas um ator em boa parte da trama e deixar quem está assistindo interessado pelo personagem que ele criou, em torno do clima de muitas dúvidas e poucas respostas. O protagonista vivido pelo ator Rajeev Anand faz um bom trabalho, dentro do propósito da narrativa, visto que ele praticamente atua sozinho boa parte do filme e para o público continuar a ficar interessado na história, além do roteiro ter que ser bom e atrativo , o ator principal tem que dar conta do recado, e ele aqui consegue, em seu segundo trabalho nos cinemas.

O roteiro escrito também pelo Balaji nos leva a esse registro quase que de forma dramática , envolto de muita misteriosidade e realidade. Em um primeiro momento somos levados a observar um terremoto em um pequeno vilarejo onde observamos muita destruição, árvores caídas, pessoas feridas e mortas. E no meio de tudo isso vemos um jornalista se gabar por ter sido o primeiro a cobrir a destruição, como se isso fosse uma vitória para ele, e o pior vitória em cima das desgraças dos outros. A partir desse momento a narrativa vai trazendo mais perguntas do que respostas sobre se de fato esse acontecimento foi verdade mesmo ou só no imaginário. Mas o enredo de fato quer falar sobre outros temas e mesmo que o seu objetivo seja falar sobre o tremor, a história é sobre o jornalismo em si e todo os seus segmentos.

A narrativa ela é densa, fria e tensa. A cada frame vamos acompanhando a trajetória desse fotojornalista em busca de uma grande cobertura. O que era pra ser algo simples e fácil, afinal na cabeça dele seria chegar no local da tragédia e tirar fotos e entrevistar algum morador da localidade, mas conforme a história vai avançando vemos que será mais difícil do que ele pensava. Apesar do filme possuir poucas falas e conversação, a história é muito visual com belas passagens da Índia entre montanhas e florestas com belíssimas locações. A trama é bastante focada na ação e acontecimentos, mesmo que sejam de forma demasiada lenta que pode irritar o espectador que não goste muito desse formato.

A seguir spoilers: O longa mostra toda a angústia e desespero do jornalista em alcançar o seu objetivo, e em seu segundo ato vemos que precisamos de respostas para as perguntas que vamos recebendo pelo caminho, de fato o terremoto aconteceu? Porque a população não gosta de sua presença? O lugar informado o faz andar em círculos, o que o faz repensar se está fazendo a coisa certa em seguir em frente ou desistir. E nesse meio jornalístico existe muita concorrência, para os furos de reportagem, ganha quem produzir e cobrir primeiro e observamos essa disputa no momento que na estrada o protagonista vê um carro à sua frente e ele sobrepõe que eles estejam atrás de sua mesma matéria e corre para passar na frente do veículo com medo de ser passado para trás e isso mostra bem a realidade com quem trabalha nesse meio.

Nessa trajetória observamos que cada vez mais fica evidente que não existe tal terremoto, mesmo que torçamos que exista porque nos apegamos aos desejos do personagem principal. Ele quer tanto acreditar que poderia ter a sua tão almejada cobertura que ele não se atenta aos detalhes e evidências. E aqui observamos como fontes podem ser verdadeiras ou fake news e isso atrapalha muito para quem quer fazer um jornalismo sério e respeitoso. Temos uma crítica para a sociedade que espalhar notícias falsas, sem antes apurar bem os fatos para então decidir se segue ou não com a sua investigação. Hoje em dia é muito fácil qualquer pessoa espalhar algo que não é verdadeiro e isso acaba gerando um grande desafio para os profissionais desse segmento. Em contrapartida temos o jornalismo sensacionalista, aqueles que se arriscam, se ferem e lutam por reportagens arriscadas que na maioria das vezes a história mostrada na tv é menor e inventada em alguns momentos para trazer audiência para o canal e ser uma explosão de audiência.

O Tremor (The Tremor) no original é um longa que tem o seu propósito e passa a sua mensagem, mesmo que algumas respostas não sejam de fato respondidas, ele é original, eficaz e sincero. Uma história de reação, onde um homem que vai em busca dos seus objetivos e pelo que ele luta e acredita. A sua abordagem e as suas peripécias são de fato louváveis quando observamos tudo pelo que ele passou e mesmo que ele não tenha conseguido sua reportagem, a experiência e aventura foi digna e significante, para que os próximos furos sejam alcançados por ele. Mesmo o enredo com seu ritmo de lentidão, para quem gosta de uma narrativa mais calma e devagar essa será uma experiência bem mais completa.