Por Eduardo Pepe

 

“Com produção de Martin Scorsesse, filme sobre escritora americana é retrato íntimo com
liberdades artísticas”. 

 

 

Importante pontuar que o filme “Shirley”, baseado no livro homônimo de Susan Scarf Merrell,
sobre a escritora norte-americana Shirley Jackson não se atém a eventos reais. O que se propõe é
uma narrativa ficcional para se conhecer um pouco de seu estilo de vida e da obra. Então, na trama,
um jovem casal de estudantes vai morar um tempo na casa da escritora, interpretada por Elisabeth
Moss, e de seu marido Stanley Edgar Hyman (Michael Stuhlbarg), professor e crítico de literatura.
Chegando lá, enquanto a mulher, Rose (Odessa Young), cuida da casa e da escritora, que vive em
depressão e em bloqueio criativo, o homem, Fred (Logan Lerman), é aluno de Stanley na faculdade.
De certa forma, essa jovem mulher, interpretada pela Odessa Young, pode representar o próprio
espectador. Afinal, ela pouco sabe sobre a escritora, mas logo demonstra simpatia e interesse em
saber mais dela e de sua escrita. Entretanto, a escritora é extremamente reservada, para dizer o
mínimo, e a trata com indiferença. Por insistência do marido, ela continua tentando se aproximar e
começa a entrar numa relação de gato e rato. Além do casal ficcional, a narrativa exclui completamente a existência dos filhos da escritora.

O grande trunfo do filme é a interpretação de Elisabeth Moss, que nunca atenua qualquer defeito da personagem. Pelo contrário, ela parece ter prazer em seu desagradável e rude. Ao mesmo tempo,
Moss consegue desenvolver muito bem a vulnerabilidade e fragilidade emocional da personagem,
que se esconde do mundo em sua casa. O foco em demasia no casal ficcional pode frustrar um
pouco, mas funciona como referencial moral e emocional do filme.

Foto de Divulgação Shirley

A diretora Josephine Decker fecha tanto o arco dramático entre os 4 personagens que pouco
sabemos sobre a vida como um todo da escritora. Mas, em contra ponto, sentimos conviver com ela
na sua intimidade, no dia a dia, vendo cada briga, cada crise, cada cigarro e cada drink. E não
poucos. Michael Stuhlbarg, como o marido da escritora, está excepcional num papel complexo que
transita entre o dócil e o rude, entre o simpático e o arrogante. Odessa Young e Logan Lerman são
competentes como os mocinhos injustiçados e confusos da história. Há ainda uma relação notável
entre Paula, a protagonista do livro que Shirley está escrevendo, e a jovem Rosie, que está
hospedada na casa dela. O roteiro uso isso de maneira sagaz para criar empatia com a personagem
do livro, sobretudo entre as mulheres, que podem se identificar com a personagem.

Laurence Jackson, filho do casal na vida real, detonou o filme. Já era de se esperar, afinal, o retrato
do casal não é exatamente elogioso e, sim, bastante ácido e até um pouco trágico ao mostra-los em
um período de crise, com direitos a muitas brigas, alcoolismo e infidelidade. De qualquer maneira,
não deixa de ser um olhar despudorado de uma fã a mente e vida de uma grande escritora. Nesse
sentido, remete a “As Horas”, o primoroso longa de Stephen Daldry sobre a escritora Virginia Wolf.
Ainda que não atinja o nível de complexidade do exemplo citado, “Shirley" também entra nesse seleto clube de cine-biografias que homenageiam seus retratados sem pudor e de maneira mais psicológica e artística do que narrativa.