Por Eduardo Pepe

 

“Curta se transforma em longa-metragem com resultado interessante, mas irregular”

 

 

O curta de 20 minutos “O Dia de Jerusa” se expande para um longa-metragem de pouco mais de 70
minutos com mesmo elenco, premissa e direção. Há um peso notável na equipe: além de reunir a
grande Léa Garcia, eternizada por papéis como a vilã de “Escrava Isaura” (1976-77), o filme é o
longa de estréia de Viviane Ferreira, uma cineasta negra. Apesar do Brasil ser de maioria feminina e
não branca, ainda há uma representatividade extremamente baixa desses setores no cinema
brasileiro. Por isso, há um peso representativo muito relevante do filme. O peso se extende para a
trama.

De caráter simbólico, o filme acompanha um dia de encontro de duas mulheres negras de diferentes gerações: a idosa Jerusa (Léa Garcia) abre a porta de sua casa para Silvia (Débora Marçal), uma pesquisadora de opinião popular sobre sabão em pó. O que era para ser apenas uma pesquisa sobre o produto de limpeza, se transforma numa conversa extensa sobre a vida de Jerusa, que é neta de escravos e viúva.

Foto de Divulgação

Num formato claramente simbólico e teatral, a ideia do filme é admirável e promissora, mas
irregular na execução. O prólogo, antes das personagens principais se encontrarem, assim com os
flashbacks, não têm efeito dramático ou narrativo. Na verdade, tem efeito contrário; diluem o
impacto do filme, que reside no embate das duas atrizes. Também falta naturalidade e fluidez aos
diálogos, que, por vezes, soam engessados. A própria realização de algumas cenas, que transitam
entre o realismo e lúdico, não convence pela falta de uma dinâmica mais orgânica entre os dois
elementos, que se revezam de maneira abrupta e pouco convincente.

Não deixa de ter belos momentos em que Jerusa conta sobre seu passado e as duas refletem sobre o
que mudou e o que não mudou da juventude da idosa para a juventude da pesquisadora. Ainda
assim, fica a sensação que faltou lapidar mais o roteiro e que algumas passagens foram para o filme
passar da uma hora de rodagem, tempo essencial para ser considerado um longa-metragem.
Entretanto, é um prazer ver a veterana Léa Garcia em plena atividade e com um nítido esforço
dramático. Por mais papéis de destaque para essa grande atriz.