Por Eduardo Pepe

 

“Longa começa promissor, mas patina no desenrolar na falta de desenvolvimento dos conflitos e de seus personagens”

 

 

Baseado no livro homônimo de Ismael Caneppele, “Verlust” gira em torno da empresária Frederica (Andréa Beltrão), em meio à crise com seu marido (Alfredo Castro) e com sua filha adolescente (Fernanda Pavanelli), ela trabalha administrando a carreira da cantora Lenny (Marina Lima), que decidiu escrever um livro sobre sua vida com o escritor João Wommer (Ismael Caneppele). Tudo começa bem, com os personagens e os conflitos da trama sendo bem apresentados com um misto de drama, tensão e sensualidade no ar.

É possível fazer uma relação com o filem “Teorema(1968), de Pier Paolo Pasolini, que gira em torno de um estranho que se hospeda numa casa de uma família e seduz a todos. Processo semelhante ocorre aqui com o escritor, que está passando dias na casa de Frederica em projeto de imersão para a escrita do livro. A empresária, claramente, não está gostando nada da ideia da escrita desse livro.
Com ótimos atores e um visual atraente, a trama se perde na festa de ano novo que a protagonista
promove no meio do filme. A partir da comemoração de virada do ano, a trama empaca. O estilo
mais convencional e narrativo de suspense é quebrado para se transforma num filme de imagens
sugestivas e de diálogos soltos e apenas pontuais. Entretanto, a ousadia não convence muito ao
deixar seus personagens a ver navios.

Foto de Divulgação

É perfeitamente possível que no livro se consiga desenvolver cada um dos personagens de maneira
psicológica em uma cena cotidiana ali e aqui. No filme, entretanto, isso não consegue ser transposto
de maneira tão satisfatória. Todos os conflitos apresentados inicialmente se retiram ou perdem
destaque para dar espaço ao problema da baleia encalhada, em uma metáfora óbvia e batida sobre
estagnação e perda, que pouco acrescenta a narrativa. Até mesmo os conflitos criados na festa são
esquecidos.

O personagem do marido em crise feito pelo ótimo ator chileno Alfredo Castro é totalmente escanteado. Por sua vez, o ator Ismael Caneppele, que é o escrito do livro de origem,
demonstra certa dificuldade em desenvolver com naturalidade o caráter andrógeno e libertário do
personagem. Ele, por vezes, soa tateante de tom e retraído em cena.

Foto de Divulgação

No fim das contas, a sempre ótima Andrea Beltrão acaba desperdiçada numa interessante trama,
que, infelizmente, resvala para o clichê de briga de mãe e filha envolvendo ir ou não para um
faculdade cara e prestigiada no exterior. Nem mesmo a relação dúbia entre a empresária e a cantora acaba sendo realmente desenvolvida. Aliás, a própria personagem de Marina Lima, que faz um alter-ego de si mesma, acaba não sendo aproveitada de maneira mais expansiva, seja em relação a abordar a vida da própria personagem ou da ironia com a vida real da cantora. Uma pena.