Por Alysson Melo

 

São Paulo, 18 de maio de 2020 – Na manhã desta segunda-feira, 18 de maio, aconteceu o 4º seminário Exploração Sexual Infantil pela Folha de S. Paulo e, com a proposta de ampliar a discussão sobre o assunto, foi realizada a pré-estreia gratuita do documentário “Um Crime Entre Nós”, produzido e idealizado pela Maria Farinha Filmes, Instituto Liberta e Instituto Alana. O evento online também contou com debate e com participação da diretora do longa Adriana Yañez, de Amanda Ferreira, integrante da Coordenação Colegiada da Rede ECPAT do Brasil, da jornalista Eliane Trindade, de Pedro Hartung, coordenador do Programa Prioridade Absoluta do Instituto Alana e Luciana Temer, Diretora-Presidente do Instituto Liberta.

O longa faz um alerta sobre o cenário da exploração sexual infantil no Brasil. Estima-se que este crime afete cerca de 500 mil crianças e adolescentes ao ano no país, isso significa que, em média, são mais de mil casos por dia. No entanto, apenas 10% são notificados às autoridades, segundo a Childhood Brasil, uma das organizações apoiadoras do filme. A produção, que traz depoimentos de ativistas, agentes da justiça e figuras como Drauzio Varella, Gail Dines, Jout Jout e Luciano Huck, investiga os motivos que posicionam o Brasil em segundo lugar entre os países com maior número de ocorrências de Exploração Sexual Infantil, de acordo com The Freedom Fund.

Durante o debate, assuntos como racismo, machismo, educação sexual em escolas, rede protetiva, leis e denúncias foram levantados. Segundo Amanda Ferreira, integrante da Coordenação Colegiada da Rede ECPAT do Brasil, além de haver necessidade em integrar os órgãos que recebem as denúncias, é importante prover maior capacitação de seus funcionários: “Quando a criança denuncia, ela pensa que seu mundo vai se transformar e o abusador vai sair de casa, mas acontece o contrário. Muitas vezes, quem sai é a criança, indo para um abrigo, ou fica em casa com o abusador, sendo culpada pela denúncia. Se ele vai preso, ela é a culpada por tirar a pessoa que é a fonte de renda da casa”, diz. “Temos portas de entrada para essas denúncias como as escolas, mas, durante a pandemia, já registramos grandes subnotificações com os colégios fechados. Precisamos sensibilizar mais pessoas, inclusive quem está dentro da rede de proteção, já que não é difícil a vítima ser questionada por pessoas da rede protetiva, se ela realmente não incitou o crime”, complementa a ativista.

Pensando nesta grande dificuldade dentro das redes e em como a sociedade precisa estar alerta sobre o assunto, Luciana Temer provocou a reflexão da audiência para dois assuntos que podem impactar em casos de exploração sexual infantil: “Hoje temos riscos legislativos muito grandes, um deles é no que diz respeito a educação domiciliar. Segundo o Ministério da Saúde, boa parte das violências acontecem dentro de casa; e há uma pesquisa, de uma pediatra americana, que diz que mais de 78% de casos de violências graves nos EUA foram cometidos por famílias adeptas do ‘homeschooling’. E, o segundo assunto, é a vedação da educação sexual nas escolas”.

Questionada se educação sexual nos colégios pode ser um incentivo para os alunos darem início às relações sexuais, Adriana Yañez foi direta: “Educação sexual tem a ver em dar ferramentas para as crianças conhecerem seus corpos, limites, o que pode ou não ser feito e identificar uma potencial violência. Existe criança que é abusada por anos e nenhum outro adulto sabe. Ela não conta, pois não tem referência de que aquilo é um abuso”, diz. Por isso a importância em haver diversos agentes atentos às crianças e adolescentes. Para Pedro Hartung, a criança é um dever das famílias, escolas, amigos, comunidades: “Protegê-las é um dever de todos nós e professores também precisam ficar atentos a todos os tipos de violações que a criança possa vir a sofrer. Há diversas pesquisas no mundo que apontam que se a gente colocar a criança em primeiro lugar e combater a violência ao seu redor, toda a sociedade vai se beneficiar com isso. Uma criança que tem a infância preservada, é uma sociedade melhor para todos nós”.

“Um Crime Entre Nós” ressalta que crianças de Norte a Sul são exploradas diariamente em benefício de adultos que as veem como troca mercantil, porém a desigualdade social e racial é um grande fator para o crime. No livro “As Meninas da Esquina”, de Eliane Trindade, três das seis personagens eram negras: “Elas são filhas da miséria brasileira, vindas de famílias muito pobres. Meninas negras são duplamente vulneráveis”, diz a jornalista. “Cabe a cada um de nós, no seu universo, estar atento a isso. Em um país com tanta desigualdade, é importante saber não só a situação dos seus filhos, mas também dos filhos de quem cuida dos seus. Se estão ou não em vulnerabilidade. Isso é muito simbólico”, complementa. Para Adriana “O corpo da mulher negra e criança vale muito pouco, enxergam como se estivesse aí, para prazer unicamente do homem. As principais vítimas de exploração sexual infantil são mulheres negras, jovens e de classe social mais baixa”.

Luciana ressalta os desafios que o enfrentamento à exploração sexual infantil ainda precisa superar e propõe que “Um Crime Entre Nós” seja uma ferramenta de discussão e mudança de pensamento, mas principalmente, de ação: “O documentário é um instrumento para a sociedade. Mas com ele, queremos constranger as pessoas, pois, uma sociedade constrangida cobra retorno de políticas públicas, se informa mais, combate o problema de forma ativa”. Entre as ações, o machismo é um dos tópicos mais fortes no argumento do filme. “Claro que existem casos com meninas e meninos. Mas o machismo é um pano de fundo para esse documentário. Para mudar o cenário da exploração sexual infantil, devemos mudar essa relação entre os gêneros. No geral a menina leva a culpa, inclusive pelas mães – que estão tão submetidas quanto às filhas, mas de alguma maneira já fecharam os olhos para isso”, afirma a diretora do Instituto Liberta.

A estreia de Um Crime Entre Nós conta com o apoio das principais instituições que atuam na proteção dos direitos da infância no Brasil, entre elas Childhood Brasil, Cedeca Bahia, Oficina de Imagens, Plan International Brasil, Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes, ECPAT Brasil e IACAS

Hoje, 18, o filme terá sua estreia oficial às 0h00, no canal GNT e, a partir do dia 19/05, estará disponível nas plataformas GNT Play (com acesso gratuito por uma semana) e VIDEOCAMP, plataforma online para exibições públicas gratuitas, em uma estratégia de distribuição orquestrada pela FLOW para democratizar o acesso ao filme.

Serviço:

Clique aqui, para assistir ao debate

Exibição de Um Crime Entre Nós no canal GNT: 00h

Plataformas para assistir ao filme a partir do dia 19: GNT Play e Videocamp.

Plataformas para assistir ao filme a partir de junho: GNT Play, Videocamp, Canal Brasil e Philos.