POR EDUARDO PEPE

 

” Traz representatividade e deslumbre visual”

 

Depois do musical “Hamilton” da Broadway virar uma febre internacional a partir do lançamento da filmagem oficial da peça para o Disney+, “Em um Bairro de Nova York”, outro musical do premiado Linn Manuel Miranda, ganha as telas. Dessa vez, em formato de adaptação para os cinemas. A direção é de Jon M. Chu, que fez sucesso com a comédia romântica “Podres de Rico” (2018). Apesar do filme divertido e agradável, nada apontava para o vislumbre desse musical. Assim como “Hamilton”, o filme também vem de um musical da Broadway, mas se passa na contemporaneidade. Ainda assim, as semelhanças não param por aí. Dá para sentir a semelhança por determinadas músicas e formas de apresentar os personagens, sobretudo, pelo uso forte do rap e hip-hop.

Foto: Divulgação

A trama de “Em um Bairro de Nova York” é quase um “West Side Story” contemporâneo, mas com menos ênfase na história de amor e mais espaço para abordar as dificuldades sociais e pessoais de cada personagem. São histórias corriqueiras de diferentes pessoas que moram no mesmo bairro, Heights, em Nova York, todos descendentes de latinos. O filme trás diversos dilemas de latinos que vivem nos Estados Unidos ao mesmo tempo que presta uma homenagem as raízes dessas pessoas.

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O resultado é um espetáculo completo: estético, de dança e de música. Não remete a musicais mais modernos como “La La Land” em que se privilegia o desenvolvimento dos personagens sob o número de canções e a desenvoltura das danças. Aqui não, são muitas músicas e várias coreografias elaboradas, como nos musicais clássicos. A adaptação chama atenção por utilizar todos os recursos cinematográficos e, em nenhum momento, parecer buscar se aproximar da linguagem do teatro para facilitar a adaptação. São inúmeros cenários, cortes, efeitos e personagens, como nos grandes musicais. Ainda assim, é perceptível a influência contemporânea – e não se limita ao elenco latino, adaptado a necessária representatividade exigida atualmente.

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Em “West Side Story”, de 1961, por exemplo, um filme essencialmente sobre as comunidades latinas nos Estados Unidos, escalaram Natalie Wood para o papel principal. A atriz, sem nenhuma descendência ou relação com a comunidade latina, recebeu um belo bronzeamento artificial e foi para as gravações. Hoje em dia, não cabe mais isso e isso o filme reaça destacando talentos novos, como Anthony Ramos no papel principal, e antigos, como Olga Merediz, que no papel da avó, talvez, tenha o número musical mais comovente. Alguns especialistas, inclusive, apontam a atriz cubana como uma possível concorrente ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel.

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Miranda, criador do musical e protagonista da Broadway, acerta ao deixar novos rostos brilharem e se limita a uma participação especial discreta. As músicas, banhadas a tiradas de rap e bases eletrônicas, também evidenciam a modernidade do musical na forma de contar suas histórias através da musical. Mas, talvez, o maior acerto seja o tom. O longa consegue abordar diversas questões sociais e raciais relevantes e urgentes da contemporaneidade sem perder o tom leve de um musical clássico.

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Se por um lado o roteiro não aprofunda tanto em personagens específicos, ele reforça o tema do filme: o poder da comunidade. Todos os personagens tem seus momentos de brilho e destaque. Mesmo alguns tendo mais espaços que outros, o lema a ser ressaltado é sempre que a união faz a força e, por isso, é privilegiado o conjunto sobre as peças individuais. Para quem gosta de musicais, “Em um Bairro de Nova York” se confirma um acerto cativante e cheio de entusiasmo em todos os pontos principais.