Por Alysson Silva

 

O cinema francês cada vez mais vem investindo em filmes de diversos gêneros, ano após ano somos apresentados a ótimos filmes que merecem ser descobertos. O cinema deles por muitos anos tinha um grande foco em produzir comédias e comédias românticas, o que o deixou estagnado por um tempo, algo que aconteceu com o Brasil também no preconceito e estimativa de que cinema brasileiro não era bom por conta do público rotular que o Brasil não produzia bons filmes sem ser de comédias escrachadas . E isso mudou graças a diversos produtores, empresas e boas histórias que foram chegando, conforme os anos foram passando. Hoje a França possui em seu currículo excelentes produções, várias indicadas a prêmios e sim os filmes franceses devem ser conhecidos. Aqui temos o longa “Espírito de Família” de 2019 onde aborda um tema sobrenatural, mas não se trata de um filme de terror, mas sim um ajuste de contas e um Pai tentando se reconectar com o filho, mas com muito bom humor e leveza. O lançamento está ocorrendo pela distribuidora A2 Filmes, que nesse ano tem conseguido lançar filmes em formato digital e não nos cinemas, como geralmente era feito antes de chegar no mercado das plataformas digitais, devido ao covid-19 essas produções infelizmente não puderam ser vistas nas telonas, mas o fato de termos novos filmes chegando semana a semana, nos da uma esperança que dias melhores virão e o cinema não pode parar.

A história nos mostra a vida do escritor Alexandre vivido pelo ator ( Guillaume de Tonquédec) que é um homem que costuma estar sozinho em seu mundo, onde cria histórias e vive nesse mundo não dando oportunidade de observar e conhecer as pessoas a sua volta. Ele criou um universo imaginário onde suas histórias tem voz e vida, ele tem a sua vida real abalada com a perda repentina de seu pai  precisa enfrentar a morte repentina de seu pai, Jaques interpretado pelo ator  (François Berléand) que após o enterro, o espírito dele aparece para o filho. O rapaz então começa a ouvir a sua voz e conversar com ele, tendo que aprender a conviver com essa inusitada e complicada companhia, já que ele é o único que pode vê-lo.

Divulgação A2 Filmes

A direção ficou por conta de Éric Besnard, mais conhecido por seus trabalhos em  (O Sentido do Amor Cash: O Grande Golpe). Ele consegue trazer uma direção centrada, sensível e delicada. Ao apresentar essa comédia dramática, que procura manter um bom nível de melodrama e aos clichês de filmes do gênero. O diretor optou por usar de alguns artifícios como o bom uso de cores vivas e coloridas, filmagens em ambientes externos e ao ar livre, lindas e belíssimas paisagens da França. Boa parte da narrativa possui muitos diálogos, mas a maneira como foi contada, não se tornou cansativo, graças ao trabalho da direção no comando de seus atores e personagens que souberam entrar nessas vidas e dar bastante veracidade e verdade nas cenas.

No campo das atuações temos os protagonistas Guillaume de Tonquédec e François Berléand que vivem pai e filho na narrativa. Tonquédec mais conhecido por seu trabalho no filme “Sobre Amigos, Amor e Vinho” de 2014. Ele conseguiu efetuar um bom trabalho na composição de seu personagem e junto com seu parceiro de cena Berléand mais conhecido por seu trabalho na trilogia “Carga Explosiva de 2012. Eles formaram uma boa dupla e em plena sintonia em cena. Os personagens tem carisma e trazem ótimos momentos tanto cômicos, quanto no lado emocional dramático. É muito divertido de se assistir e é cativante acompanhar a vida deles. Outro destaque está em Josiane Balasko de “Graças a Deus” (2018) que da vida a esposa do falecido. Ela traz toda a sua dor e lado emotivo ao enfrentar a perca do seu marido e ter de seguir em frente. A atriz mostra toda a sua experiência em trabalhar com textos que envolvem comédia dramática, sendo assim a sua zona de conforto. Completando os destaques temos o ator Jérémy Lopez que participou anteriormente do longa “O Genro da Minha Vida” (2018), que aqui vive o irmão de Alexandre. Ele traz um bom antagonismo, em uma atuação satisfatória, sendo esse o seu primeiro filme de maior prestígio.

Divulgação A2 Filmes

O roteiro também escrito por Éric Besnard, nos apresenta uma história sobre laços e elos familiares que foram perdidos pelo caminho e de como essa família tentará se reconectar após uma grande perda. A história parte do princípio de um pai de família que após sofrer um infarto tem o seus espirito preso e conectado á terra através de um contato com o seu filho mais velho Alexandre. O Pai começa a aparecer para ele, com que faz com que ele questione sua sanidade e loucura, por só ele estar vendo. Eles tem assuntos mal resolvidos e precisam se entender, já não é de hoje que a relação deles não é saudável e possuíam uma difícil convivência. Alexandre vive para o seu trabalho como escritor e tem um bloqueio com a sua escrita devido aos últimos acontecimentos, ele até tenta por a sua vida nos trilhos, mas o fato de o seu pai o acompanhar por todos os lados, faz com que ele tenha que observar o que acontece ao seu redor, algo que antes ele não fazia devido a só viver para os seus livros e esquecer de seus parentes. Jaques mesmo após sua morte tem um elo com seu filho e é por isso que eles estão conectados.

A narrativa nos traz momentos de humor e sensibilidade ao abordar o tema familiar, onde pai e filho precisam se reconectar . Se trata de uma história sobre perda, lutos e de como seguir adiante, mesmo com todas a incertezas da vida. Perder um parente querido já é difícil e com essa perda se vem muito medo, aflição, confusões, brigas e conflitos em cima da tristeza e de como cada parente tem de encarar o seu luto. O protagonista Alexandre se sente perdido e sem rumo, depois da aparição de seu pai, e de não conseguir mais escrever , ele com o incentivo do espirito passa a observar as pessoas ao seu redor, objetos, sua esposa e seu filho. Ele não percebe mas o seu casamento está em ruínas, é um pai ausente e não possui uma boa relação com eles. E com a partida de Jaques, ele começou a perceber o que poderia perder caso continuasse tendo a vida que levava.

Divulgação A2 Filmes

O enredo te leva a uma família desfuncional que como toda ela passa por bons e maus momentos. É muito bonito de ver como a relação desses parentes vai mudando e evoluindo, a cada novo frame podemos notar que todos estão tentando seguir com suas vidas, mas não sabem por onde começar. A forma como o Alexandre passa a conviver com sua família a da vida real e não dos seus contos imaginários é muito emocional. Ele conviver, conversar e sair, seja para curtir com seus parentes é um novo recomeço onde ele pode se tornar a pessoa que ele deveria ser. Um homem que convive, conversa, interage e cuida daqueles que ele ama. É como se o seu pai tivesse dado a ele uma nova oportunidade de ser uma pessoa melhor, ter aberto os seus olhos e a ter uma nova vida. O espirito do título não é do mal e aqui ele faz um bem enorme, graças a ele que tudo na vida deles começa a mudar, com todos passando a ter momentos juntos, seja em almoço, jantares, saídas pela praia e até mesmo jogos de rugby, criando assim um elo entre eles que antes tinha sido perdido pelo caminho.

“Espírito de Família” é um filme que fala sobre perda, luto, amor e conexões familiares . A luta de um homem para ter o perdão de sua esposa e de como pode vir a ser um pai melhor. O poder da amizade, dos laços afetivos pode transformar vidas e esse é um dos ensinamentos que o longa nos passa. O conceito de um pai ensinar para o seu filho, a ter uma vida intensamente, para se divertir, sorrir, rir, dançar, amar e ser feliz é algo que ficou muito lindo na narrativa. A evolução da narrativa para o seu ato final engrandeceu bastante dentro do roteiro, por usar de elementos para conectar o expectador a esses personagens, de forma que nós criamos um elo cativante e emocional com eles e a sensação de alegria, sorriso no rosto e com o coração quentinho cheio de amor quando o filme tem o seu the end.