Por Eduardo Pepe

 

O Festival de Gramado acaba sábado dia (26/09), encerrando uma edição bem diferente. O Festival funcionou inteiramente na televisão, via Canal Brasil, e online, via as redes sociais e plataformas digitais do festival e do Canal Brasil. Foram exibidos filmes estrangeiros da América Latina, curtas-metragens nacionais (com os filmes gaúchos ganhando uma mostra própria) e longas-metragens brasileiros, como já é de costume. 

 

Mostra Competitiva de Longas Brasileiros 

 

Todos os Mortos – Marco Dutra

Tive o prazer (e o tempo) de acompanhar a mostra de longas brasileiros. Os 7 longas brasileiros apresentados mostraram que o festival conseguiu reunir a quantidade habitual de filmes com inclusive nomes de prestígio do cinema brasileiro atual, como os diretores Marco Dutra e Camilo Cavalcante, assim como o veteraníssimo Ruy Guerra. Entretanto, em termos qualitativos, ficou evidente que grande parte dos diretores resolveu segurar os lançamentos para o ano que vem.   

Dos sete longas apresentados, apenas quatro realmente se justificam como parte da seleção e, desses, apenas três realmente geraram debate em púbico e crítica. Os três são “Todos os Mortos”, de Marco Dutra e Caetano Gotardo, que foi o representante do Brasil na corrida pelo Urso de Ouro no último Festival de Berlim, “O Animal Amarelo”, de Felipe Bragança, e “King Kong em Asunción”, de Camilo Cavalcante. O quarto, que se justifica, mas que não empolgou tanto é “Aos Pedaços”, de Ruy Guerra. Primeiro porque é um filme de Ruy Guerra, veterano e consagrado diretor de clássicos como “Os Fuzis” e “Os Cafajestes”, então qualquer filme que ele fizer será um candidato sólido para Gramado (e qualquer festival de cinema). Entretanto, seu mais novo filme, embora não lhe falte ousadia e ambições artísticas, é deveras irregular no texto e, embora tenha conquistado alguns fãs, mais entediou do que intrigou a maioria do público do festival.  

Os dois documentários apresentados na mostra competitiva, “O Samba é Primo do Jazz”, de Angela Zoé, sobre Alcione, e “Me Chama que Eu Vou”, de Joana Mariani, sobre Sidney Magal, são dois filmes simpáticos em que os biografados falam confortáveis em frente a câmera contando um pouco de suas trajetórias, mas ambos são documentários simples, chapa-branca e sem muitas ambições artísticas que justifiquem a presença em uma mostra competitiva de festival, ainda mais um festival grande e de prestígio como o de Gramado e num país como o Brasil, que produz documentários aos montes e dos mais ousados e desafiadores. A recepção predominante negativa perante a crítica de “Por que você não chora?”, de Cibele Amaral, que infelizmente não pude conferir, também indica que não havia muitos motivos para a seleção do filme – somente possivelmente premiar Bárbara Paz e de ter um nome  feminino entre os diretores de ficção presentes na mostra competitiva nacional.

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Melhores Atores

 

Entre os atores, nenhuma atuação com potencial para ser um “marco” ou bastante premiada nas maiores premiações do ano, como foi ano passado com Marcelia Cartaxo com “Pacarrete”, que por causa da pandemia ainda não pode estrear comercialmente, e Andrea Beltrão com “Hebe – A Estrela do Brasil”. Entretanto, alguns nomes se destacaram; a bela performance do falecido Andrade Júnior (King Kong em Assunción) grita Kikito de Melhor Ator, já os poucos, mas chocantes minutos em cena de Herson Capri em “O Animal Amarelo” pode ser uma opção forte para Melhor Ator Coadjuvante. Alguns mais entusiasmados falam até que, apesar da pouca duração, ele merece o prêmio de ator principal mesmo. Mas o real protagonista do filme, “O Animal Amarelo”, é Higor Campagnaro, uma grata revelação, que tem tudo para ser um nome que vamos ouvir falar mais nos próximos anos. 

 

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No filme de Ruy Guerra, “Aos Pedaços”, Emílio de Mello é o protagonista e carrega o filme, mas, num ano de pouco protagonismo feminino na frente das câmeras na competição, Simone Spoladore e Cristiana Ubach podem sair com algo por suas boas atuações no filme. Além do filme “Por que você não chora?”, que tem Bárbara Paz e Carolina Monte Rosa como forças motrizes e candidatas em potencial para Melhor Atriz, apenas “Todos os Mortos” tem atrizes protagonizando. E são logo três para compensar a ausência nos outros filmes: Clarissa Kiste e Carolina Bianchi estão bem, mas é Mawusi Tulani, como uma escrava liberta a procura de reencontrar seu marido, quem mais se destaca no núcleo principal. Thaia Perez, como a matriarca de uma família branca em decadência financeira, também se destaca, mas em papel mais coadjuvante. Falando em papel coadjuvante, Thomas Aquino, o pacote de “Bacurau”, também se destaca no mesmo filme, “Todos os Mortos”, e pode ser uma surpresa para o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. 

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Prêmio do público, da crítica e o Kikito de Melhor Filme   

 

Para o prêmio do público, é difícil prever. “Me Chama que Eu Vou” e “O Samba é Primo do Jazz” são documentários simpáticos sobre personalidades queridas da música brasileira e, por isso, podem ganhar mais a simpatia do público. “O Animal Amarelo” e “Todos os Mortos”, embora entre os mais elogiados, são polêmicos e divisivos. “King King em Assunción” tem tudo para arrebatar o público com sua proposta poética, mas o ritmo lento pode afastar alguns espectadores. Talvez a perspectiva feminina sobre saúde mental de “Por que Você não chora?” tenha conquistado o público, mesmo com a baixa recepção da crítica. Mais fácil é prever o prêmio da crítica: “King King em Assunción”, sem dúvidas, é o favorito, seguido de perto por “O Animal Amarelo”. “Todos os Mortos” come por fora. Qualquer resultado diferente disso será uma baita surpresa. E isso vale também para o prêmio do júri do Kikito de Melhor Filme. “Aos Pedaços”, de Ruy Guerra, sempre pode surpreender. Ele dificilmente saíra sem nada, mas não deve levar os prêmios principais de Melhor Filme.