Por Alysson Silva

 

Nota: 9/10

 

Após uma bem sucedida estreia do longa nacional “Os Três Verões” com a Regina Casé no mês de setembro com lançamento exclusivo na plataforma de streaming, agora temos um novo filme chegando no Telecine se trata do novo projeto de João Fonseca. Por conta do covid-19 muitas distribuidoras que iam lançar o seu filmes nos cinemas, tiveram que se adaptar para lançar suas produções, algumas decidiram adiar para 2021 os seus lançamentos, outras decidiram estrear em drive-ins que foi uma nova alternativa necessária, nesses tempos em que as salas de cinema estavam fechadas com o aumento de casos da pandemia no Brasil. Uma outra opção foi estrear de forma online nas plataformas digitais ou streaming. E cada vez mais as plataformas de streaming investindo em conteúdos originais e exclusivos, eis que foi uma boa tática que trará muitos frutos para o Telecine por estar criando um portfólio de filmes exclusivos .

Somos apresentados a vida de Antônia, que está desempregada. E com cada vez menos dinheiro, ela fica preocupada com o seu futuro, mas ela não perde o senso de humor nem quando se vê no meio de um grande problema. Revoltada com o aumento dos preços no único mercado que existe no bairro onde mora, que agora não está mais aceitando vender fiado, a dona de casa resolve criar um protesto e acaba incentivando os outros clientes que, como ela, estão sem dinheiro para pagar pelos produtos. Num grito de guerra, eles dizem: “Nós não vamos pagar nada!”. Na confusão, Antônia se deixa levar e acaba saqueando tudo o que vê pela frente: legumes, verduras, frutas e até alpiste e carne enlatada para cachorro. Agora, ela vai precisar pôr as ideias para funcionar e tentar esconder esses acontecimentos do seu esposo, que é todo correto e, ainda, despistar os policiais que investigam os roubos do mercado.

Foto de Divulgação H2O Films

 O cineasta João Fonseca mais conhecido por seus trabalho nas séries de comédia “Vai Que Cola” e “A Vila” do canal de tv Multishow. Aqui faz a sua estreia como diretor em um longa-metragem. Ele traz toda a sua experiência obtida na televisão e no humor para contar essa história. João tem um comando acertado, traz segmentos que elevam o riso e de forma natural sem soar escrachado ou pejorativo. Tem uma direção correta, eficaz e uma plena sintonia com o seu elenco. 

O elenco repleto de atores já conhecidos do público trazem um bom envolvimento. Primeiramente temos a parceria da Samantha Schmütz com o diretor João (eles trabalharam juntos na série “Vai Que Cola”). Aqui ela vive a protagonista Antônia e está tão a vontade no papel, que posso dizer que deve ter sido escrito pensando nela. O fato dela ter muita experiência em comédia pode a ter ajudado nessa produção. A Samantha tem um dom natural de atuar e nos tirar o riso, além de ser muito carismática e querida ela carrega o filme nas costas e arrasa em todas as suas cenas. Ao seu lado temos um parceiro de peso Edmilson Filho (mais conhecido por seu trabalho no filme e série Cine Holliúdy) ele foi uma boa adição ao projeto e está em plena química com a Schmütz, é muito bom ver dois bons comediantes trabalhando juntos e eles estão uma verdadeira explosão em cena. Completando os destaques do atores temos o Fernando Caruso (mais conhecido no papel do Wilson na série Vai Que Cola) ele é muito engraçado, eu adoro vê-lo em cena, por justamente ser tão natural e espontâneo. O trio de protagonistas juntos é bem gostoso de se assistir e trouxe para o longa a energia necessária para que a história pedia.

Foto de Divulgação H2O Films

O roteiro escrito por Renato Fagundes, (ele que já tem muitas produções em seu currículo, a mais famosa é a série Sob Pressão e o mais recente “Modo Avião). Ele traz para o público um projeto bem autoral e original ao abordar temas de apelo público e político. A trama parte do principio de uma revolta da população local, que queria poder fazer uma feira e poder pagar depois, visto que o mercado da cidade aceitava esse segmento e essa revolução dos moradores isso já é uma crítica social por conta dos desempregos, da falta de capacitação profissional e a falta de empregos. Afinal como a população pode pagar para fazer compras se não se existe mão de obra e oportunidades? Os clientes do mercado sofrem não só por não poder comprar e pagar depois, como também pelos altos preços dos produtos, fazendo uma alusão a vida real onde você não consegue comprar muita coisa com pouco dinheiro.

A narrativa faz uma uma crítica social e política sobre a Fome, ao apresentar uma população passando fome e vivendo de migalhas. Eles estão desempregados, com muita fome e sem dinheiro no bolso para poder por um prato de comida na mesa, isso nos remete a realidade em que assola o nosso Brasil, onde tem tanta gente na miséria passando fome, e tendo que viver de forma precária e indigna e a base de doações da família, parentes e desconhecidos. Apesar do filme ter uma pegada de comédia e alivio cômico, a história faz uma provocação ao governo brasileiro, onde com a inflação se elevou os preços de tudo nos supermercado e que faz com que milhares de brasileiros passem por dificuldades por justamente pela muita procura por trabalho e poucas ofertas. Fora a falta de experiência , mão de obra precária por não ter tanta capacitações profissionais, as poucas oportunidades para o primeiro emprego e a recolocação no mercado de trabalho. 

Foto de Divulgação H2O Films

As aventuras das amigas para esconderem as comidas roubadas do mercado, são muito dinâmicas e divertido de acompanhar essa turma se metendo em apuros e as peripécias para tentar contornar a situação. Com um roteiro bem bolado, que nos traz diversos momentos cômicos, engraçados e relevantes. O filme foi baseado na peça de teatro “Non si Paga! Non si Paga! de Dario Fo . 

Não Vamos Pagar Nada é uma comédia de ação e reação, para fazer uma leve e espontânea trama de lutas, garras e revoluções. Aqui o humor é usado de forma contundente, real e satírico por usar elementos que tragam piadas e histórias que nos identificamos tipo como gente como a gente. A narrativa passa uma conexão com o público que está assistindo e dessa forma nos conectamos a esses personagens e ficamos a torcer por eles. Suas conversas, falas e frases nos tiram risadas e gargalhadas e hoje em dia é muito difícil você encontrar produções que nos leve ao riso de forma natural, sem usar de artifícios como humor escrachado e com uso de palavrões ou gírias de baixo calão, que não só deixa a produção mais pesada como soa em alguns momentos como deselegante. O melhor de dar risadas é quando o enredo te pega e te faz rir de forma orgânica, não forçada e obrigada. E aqui a comédia não só aumenta o nível e a forma de ver o humor como o resultado final é positivo e bem humorado em nos arranca muitas e muitas risadas.