Por Eduardo Pepe

 

 

Trazendo para o contexto atual, documentário resgata voz e obras de Glauber Rocha 

 

O programa “Abertura” foi exibido na extinta TV Tupi em 1979 e 1980. Nele, as mais variadas personalidades teorizavam, exemplificavam e opinavam sobre questões da época do Brasil, que estava ensaiando uma abertura democrática e engatinhando no que seria o “Diretas Já”. Glauber Rocha foi uma das figuras importantes que passaram por lá. Pensando na relevância e contemporaneidade de seu discurso, os diretores Paloma Rocha e Luís Abramo resgatam cenas do programa assim como de clássicos filmes de Glauber Rocha, desde os mais falados, como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe”, como alguns mais obscuros, como “A Idade da Terra” e “Pátio”, seu primeiro filme. Em paralelo, os diretores filmam o Brasil de hoje, cercado pela polarização política. Assim como Glauber fez no programa no passado, os diretores conversam com anônimos e famosos pedindo suas opiniões sobre o Brasil de hoje. Alguns convidados dos programas de Glauber retornam dando seu parecer atual sobre o país e falam da perenidade do discurso e obra do diretor baiano. 

O resultado impressiona mais pelo passado do que pelo presente. Com belíssimas imagens restauradas dos clássicos de Glauber, se evidencia como sua obra foi e permanece sendo vanguarda. Também se destaca determinadas falas e comportamentos de Glauber em um momento que é pouco lembrado quando se pensa no diretor; o fim anunciado da ditadura. É muito importante resgatar quais eram seus pensamentos e expectativas para o Brasil já perto do fim de sua vida. 

O presente, entretanto, pouco acrescenta. É notório, claro, ao colocar em sequência passado e presente que Glauber abordou assuntos que estão mais atuais do que nunca, mas é justamente por isso que se evidencia a fragilidade das filmagens novas. As cenas no presente pouco acrescentam ou aprofundam a narrativa, pois carecem de contraditório ou complexidade. Há algumas boas exceções, como a sequência em que moradores de favela discutem sobre o que acham e pensam de política. Por outro lado, as narrativas das passeatas do #EleNão e do #EleSim são usados apenas como plano de fundo sem maior aprofundamento. Alguns convidados no presente também pouco acrescentam. Caetano Veloso, por exemplo, vale apenas por seu carisma, pois sua participação na atualidade se limita a elogiar Glauber e falar coisas que as imagens do próprio filme já dizem por si. De qualquer forma, é um registro histórico relevante para os dias de hoje e mais uma forma de contextualizar Glauber para as novas gerações.