Por Eduardo Pepe

 

 

 

Sensível, longa acompanha uma jovem mãe mexicana e seus dois filhos tentando a vida nos Estados Unidos

 

Lucía (Martha Reyes Arias) decide ir morar com seus dois filhos, Max (Maximiliana Nájar Márquez) e Leo (Leonardo Nájar Márquez), nos Estados Unidos. Com seu carro, ela ultrapassa a fronteira dizendo que vai passear na Disney e passa a buscar emprego e onde morar. Sem muito dinheiro, ela deixa as duas crianças sozinhas em casa enquanto sai para o trabalho. Com elas, fica apenas um gravador com todas as regras do que não devem fazer. Entre as regras, os meninos não podem nunca sair de casa sem a presença dela. Claro que eles não irão cumprir. O longa gruda nos dois meninos e acompanha o dia a dia deles; eles brincando, eles brigando, eles conhecendo os vizinhos, eles tentando aprender inglês e tudo mais que eles conseguem fazer com os poucos recursos e possibilidades que têm. Por focar muito mais na visão das crianças do que da mãe, o filme lembra o americano “Projeto Flórida” (2017). 

O diretor aposta numa abordagem quase documental, com poucos truques visuais, muita câmera na mão e esbanjando naturalidade nos diálogos. O que chama atenção no filme é o nível de sensibilidade que ele consegue. Há uma nítida atenção nos detalhes; nas vozes recordadas no gravador, o medo e o curiosidade das crianças em relação aos vizinhos, a relação desenvolvida com a família que aluga o apartamento para eles e por aí vai. Tudo é construído de forma bem realista e muito sensível sem, no entanto, pesar a mão ou apostar no choro fácil. 

Foto de Divulgação

Outro destaque absoluto é o elenco; Martha Reyes Arias dá uma bela atuação como a matriarca e nenhum coadjuvante é menos que ótimo, mas o show mesmo é das duas crianças Maximiliano e Leonardo, confortáveis, entrosados e carismáticas em cena. E sem fazer esforço aparente. Tudo no filme é construído dentro da trama, dentro da história, de forma que soa natural. Nada parece forçado ou fora do tom para gerar fofura ou choro fácil nas crianças. Nesse sentido, a experiência do diretor Samuel Kishi com documentários deve ter ajudado na construção mais contida do filme. E assim, apostando numa boa história e em bons personagens, o filme te conquista; pela construção humana dos protagonistas, pelos detalhes realistas das situações e pela dupla irresistível de crianças em cena. Sem dúvidas, é um grande candidato a representar o México no Oscar 2021.