Por Eduardo Pepe

 

 

Misturando documentário com suspense, diretor cearense se embola em aborrecida trama ambiental 

 

“Pajéu” começa com uma sequência estranha e tensa: uma mulher sai de um prédio e começa a passar por uma ponte sob um rio. Dentro desse rio, que mais parece um esgoto, há algo ou alguém que deixa a mulher hipnotizada. Parece ser uma pessoa. Na verdade, parece um monstro feito de lixo. A assimilação ambiental é óbvia e funcional. Entretanto, o que começa interessante se mostra, cada vez mais, aborrecido com o passar dos arrastados 74 minutos de filme. 

 

A protagonista, Maristela (Fátima Muniz), é uma professora em uma escola e parece passar por um momento difícil. Seu amigo, Yuri (Yuri Yamamoto), tenta levantar o seu astral e sempre tenta ajudar. Com o tempo, ela passa a ficar obcecada com o rio Pajeú, o tal rio sujo da primeira cena. A partir daí, se segue uma investigação ambiental com a protagonista descobrindo questões sócio-políticas e históricas em relação a esse rio, que realmente existe na cidade de Fortaleza, no Ceará. 

Foto de Divulgação

Entretanto, a sensação que fica ao assistir ao filme é que o que poderia ser um bom documentário se perde, porque o filme insiste em assimilar os problemas psicológicos da protagonista com o rio. Inicialmente pode parecer que ela esconde um segredo com o rio, mas, na verdade, o que tava escondido era um roteiro permeado de metáforas pobres. A sequência que Yuri canta num karaokê, que reproduz imagens de plantações estimuladas com agrotóxicos, é constrangedora de tão óbvia e apelativa. E, infelizmente, o filme passa a se desenrola todo assim. 

 

Entre um tom documental didático que pouco sai do básico e um suspense psicológico que de psicológico pouco tem, no fim das contas, não sabemos nada sobre a protagonista e pouco nos importamos com ela. Ela é o símbolo de uma causa. Causa essa que se bifurca: além do engajamento ambiental, vira também uma reflexão pueril sobre o apagamento histórico e o medo do ser humano de ser esquecido. Mas é tudo superficial e mal desenvolvido. 

 

Os atores fazem o que podem; Fátima Muniz está natural e comprometida, porém há pouco o que fazer com uma personagem que nunca se abre para si mesma ou para o público, e Yuri Yamamoto é a luz do filme. Seu personagem tem pouca importância, mas sempre injeta carisma e humanidade. Ele, inclusive, pode simbolizar a reação do público; quando a protagonista explica o motivo de estar tão interessada naquele rio, ele diz “só sobrou isso que te mobiliza?”. Para o público não é muito diferente já que permanece um mistério as ações e as reações da personagem. 

 

As entrevistas da protagonista com pessoas da região que são afetadas de alguma forma pelo rio são irregulares: enquanto algumas rendem bons diálogos e dão, de fato, um panorama social do problema, outros nada contribuem e soam repetitivas. Difícil entender como o diretor Pedro Diogenes, que fez de seu filme anterior um longa tão simpático, “Inferninho” (2018), pode ter errado tanto a mão. Uma decepção.