Por Eduardo Pepe

 

“Bonito ainda que um tanto irregular, filme conta história de família de diretora em formato poético”

 

Apesar da pouca idade e da pouca experiência, a cineasta portuguesa Catarina Vasconcelos demonstra grande ousadia e sensibilidade ao realizar seu primeiro longa-metragem. Espécie de documentário poético com encenações pontuais, o filme conta a história de sua família. Começa por seu avô, já velho, viúvo e com saudade de sua falecida esposa para depois retornar para a história para o início de sua vida adulta, quando ele conheceu a esposa. A partir disso, o filme conta, com detalhes e sentimento, a vida adulta dos dois em paralelo com o nascimento e criação dos filhos. Para isso, não foca nem em atores nem em depoimentos e, sim, uma poética narração em off em primeira pessoa. Cada personagem tem um narrador que conta sua história. Na tela, imagens e vídeos. A diretora usa dos mais variados recursos visuais para ilustrar a história e usa apenas pontualmente diálogos e encenações tradicionais.   

O grande desafio de um trabalho como esse é conseguir segurar a narrativa por mais de uma hora e meia e se afirmar como cinema e não como um Power Point de imagens bonitas com uma bela narração. Como ela consegue isso? Com talento e domínio da linguagem cinematográfica. Há um belo casamento de narração com imagens, o que esbanja uma criatividade e uma sensibilidade notável. Enquadramentos, simbolismos, performances artísticas, fotos, objetos, de um tudo é usado para ilustrar a história. 

Foto de Divulgação

Entretanto, a narrativa evidencia um certo desgaste quando muda o protagonismo do casal inicial indo para um dos filhos, já adulto, que vive agora seus próprios conflitos com esposa e filha. A narrativa é similar a do casal anterior, mas sem a mesma força. Não que a qualidade do texto ou do visual caia excepcionalmente, mas evidencia uma certa repetição nesse apresentar e desenvolver de novos personagens. É notável a opção do privilégio do tom poético em relação a informação e a formatação como uma espécie de saga pelas gerações da família, mas o desvio do casal inicial deixa de maneira abrupta algumas informações e detalhes daqueles personagens, até então tão bem construídos. Ainda assim, sem dúvidas, é um belo exercício poético que vale à pena experimentar para quem curte um cinema que fuja do convencional. A ver pelos prêmios e elogios que vem colecionando, não seria estranho pensar que possa ser um forte candidato para representar Portugal no Oscar 2021.