Por Eduardo Pepe

 

Nota: 3,5/5

 

“Ambiciosa epopeia ambientada no sertão nordestino gira em torno de anti-herói do cangaço”.

 

O cineasta baiano Geraldo Sarno realiza seu primeiro longa desde 2010, quando lançou “O
Último Romance de Balzac”, e o seu primeiro longa de ficção desde “Coronel Delmiro Gouveia”,
do distante ano de 1978. Seu mais novo filme, ao mesmo tempo, que remete a clássicos do Cinema
Novo, movimento cinematográfico do qual fez parte que teve seu auge nos anos 60 e 70, sem deixar
de soar atual e urgente. Afinal, o filme mistura linguagens distintas. Desde o documental, passando
por um flerte com um tom teatral até breves momentos de metalinguagem ficcional.

O filme se passa no sertão nordestino na época de Getúlio Vargas em algum lugar no interior
da Bahia. De cara, conhecemos um homem, que parece ser um cangaceiro pelos trajes que usa. Ele
está seriamente feriado e se arrasta no meio de um deserto tentando não morrer. Aos poucos, ele
começa a pensar alto e passa a lembrar acontecimento de sua vida. Nesse momento, começamos a
acompanhar alguns momentos da vida daquele homem. Entretanto, as cenas não vem em ordem
cronológica e, sim, em parcelas desorganizadas, confusas e quase como um delírio. Contar mais que
isso estragaria a ousada proposta narrativa do filme. Então, o que de ante-mão interessa saber é que a trama vai percorrer o êxodo rural, a rivalidade cangaço vs Estado, a pobreza extrema e com um plano de fundo dos principais acontecimentos da era Vargas.

Foto de Divulgação

Ao não adotar uma narrativa convencional, o filme se apresenta como uma epopeia poética
em volta do sertão nordestino com uma visual acachapante. O visual é preto e branco, mas um preto e branco retrô, com direito a luz estourada e momentos de pouca discrepância entre o branco e o preto, como eram os filmes do Cinema Novo. Impossível não lembrar de clássicos absolutos, como “Vidas Secas” (1963) e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964). Mas o longa não se limita a isso: em duas cenas, por exemplo, os bastidores da produção são exibidos, ou seja, o próprio filme
mostra que trata-se de um filme em clara metalinguagem. Em uma cena, o texto evidencia o motivo
dessa metalinguagem, já na outra segunda o uso é mais questionável e cabe discussão de seu
significado e adequação. Há também sequências de cenas com pessoas e cenários reais que se
conectam com sequências da narrativa numa clara ligação entre trama e a realidade ainda presente
nos dias de hoje. Sem falar na belíssima sequência que leva a trama a um flerte com o sobrenatural.

Tanta ambição, com diferentes linguagens pode deixar a sensação de excesso de possibilidades, como se o filme quisesse atirar para todos os lados ao mesmo tempo. Entretanto, Sarno, um diretor experiente, demonstra maturidade ao conseguir equilibrar as experimentações de uma maneira fluída dentro da narrativa na maior parte da vezes. No fim das contas, tudo soa condizente com o universo poético criado. O porém, no entanto, é o formato da trama, que gira entre o protagonizando agonizando no presente e flashbacks com ele lembrando de fragmentos de sua vida. Esse formato deixa a trama episódica, o que acaba tornando a narrativa um tanto irregular.
Entretanto, para cada sequência que soa um tanto desconexa e sem muito propósito, como a da
mulher nua desesperada em um quarto, há uma porção de sequências realmente notáveis que
destacam o uso excepcional de direção de fotografia, imagens e narração. O resultado é tão
inusitado e acima da média que resta torcer para que Sarno não demore mais tantos anos para
entregar um novo filme.