Por Eduardo Pepe

 

 

Diretor faz imersão polêmica e ousada no mundo de um homem imundado pelo desejo e corroído pela repressão 

 

Chega a ser engraçado como o mesmo diretor, Daniel Nolasco, integra o mesmo festival com dois filmes tão parecidos e, ao mesmo, tempo tão diferentes. Assim como o documentário “Mr. Leather”, “Vento Seco” também explora o mundo do fetichismo gay e do Leather no Brasil. Entretanto, enquanto um, é reto, o outro deforma. Enquanto um é didático e contido, o outro é hedonista e explosivo. Na trama, Sandro vive uma vida um tanto monótona. Ele trabalha em uma fábrica de fertilizantes e divide seus dias religiosamente entre o clube de piscina da cidade, o trabalho na fábrica, o futebol com os amigos e umas poucas festas com o mesmo pessoal de sempre. 

Sandro seria um homem completamente comum se não fosse seu apetite sexual. Gay não assumido, Sandro alimenta fetiches um tanto quanto não convencionais. Retraído com tudo e com todos, ele só se permite liberar suas fantasias nos sonhos ou com um colega de trabalho com quem mantém uma relação puramente sexual. Sandro se recusa a qualquer investida minimamente amorosa de qualquer pessoa a sua volta. As coisas começam a ficar mais intensas quando ele conhece Maicon, um novo morador da cidade, que passa a ser sua obsessão. No fim das contas, o filme testa o protagonista o tempo todo a ficar entre a repressão e a luxúria, entre os sentimentos engolidos e a tentativa de estabelecer alguma relação de afeto.

Foto de Divulgação

O diretor propõe um suspense psicológico altamente estilizado. Os momentos eróticos do personagem são pontuados por luzes de neon roxas, esteja ele em casa ou no banheiro do clube. Não há concessões aqui para os mais sensíveis: as cenas de sexo são gráficas e os fetiches sempre expostos. O filme “Bruna Surfistinha” pode até parecer um pouco careta em comparativo. Não que o protagonista seja adapto de fetiches perigosos ou muito exóticos. Apenas o diretor Nolasco assume que como o elemento erótico é fator central na vida de seu protagonista, o público de nada deve ser poupado. 

Além da estética criativa, há um uso inteligente de uma trilha sonora que remete a clássicos do cinema que não faria vergonha nenhuma a Hitchcock, estilo que o cineasta parece beber para compor a parte do suspense neo noir do filme. Como construção de personagem, o filme acerta em cheio na composição discreta e cheia de nuances de Leandro Faria Lelo no papel central.

Foto de Divulgação

O elenco coadjuvante também não faz feio, incluindo, uma participação divertida da cantora Mel Gonçalves, ex-Banda Uó, aqui totalmente despida da sua áurea de diva pop. Alguns elementos coadjuvantes, como o clima seco sempre comentado e ressaltado da região e a luta dos operários na fábrica por mais direitos, ficam um tanto para escanteio e não recebem um grande desenvolvimento, mas servem para compor aquele universo de maneira ampla e realista. Sem dúvidas, não é para todos os gostos, mas, certamente, para quem não tem medo nem incomodo com relação a sexo, vale a pena conhecer esse longa bastante criativo do ponto vista estilístico, hipnótico em suas imagens e corajoso em sua abordagem.