Por Alysson Melo

 

 

Cada vez mais a França vem se consolidando em produzir animações e competindo até mesmo com o escalar de grandes estúdios: como Disney, Pixar, Sony e Universal.  Na última década se produziu muito conteúdo animado que teve grande prestigio e aceitação tanto pela crítica como público. Aqui no Brasil ainda se tem um certo preconceito para com animações francesas, mas estamos aqui para enaltecer e divulgar o que é bom, mesmo que desconhecido. Produções como: “Persepólis (2007)”, “Ernest e Celestine (2012)”, “A Pequena Loja de suicídios (2012), “Jack e a mecânica do coração (2013)”, “Astérix e o Domínio dos Deuses (2014)” (que já é um franquia lucrativa de filmes lá na França), “O Pequeno Príncipe (2015)”, “Abril e o Mundo Extraordinário (2015)”, “A Tartaruga Vermelha (2016)” e a mais recente animação “Perdi meu Corpo (2019)”, são alguns dos longas que merecem ser assistidos pelas suas incríveis histórias.

A história aqui se passa no verão de 1998, em uma Cabul, capital e maior cidade do Afeganistão, sob o comando do Talibã. A narrativa mostra o dia-a-dia da população de Cabul, e temos o jovem casal Zunaira e Mohsen: ele professor de história e ela professora de desenho, eles lutam para terem um vida digna em meio a tantas atribulações. Eles são apaixonados, mas não se sentem livres nem mesmo dentro da casa.  Apesar de toda a violência que os cerca e a falta de dinheiro e trabalho, sobrevivem por miséria diárias, eles suprem a esperança de ter futuro melhor. Um dia, uma situação sai fora do controle e faz com que tudo mude e entre por um caminho totalmente sem volta e saída. A animação é uma adaptação do livro ‘As Andorinhas de Cabul’, de Yasmina Khadra. Exibido no Festival de Cannes (2019) e consagrado vencedor no Festival de Annecy de 2019.

@Divulgação Vitrine Filmes

Falando sobre o trabalho de direção, ficou a cargo das diretoras: Zabou Breitman, que já possui muitos curtas-metragens no currículo e alguns longas metragens sendo o melhor avaliado o filme “O Acompanhante (2009)” e a Eléa Gobbé-Mévellec que faz a sua estréia em direção de longas metragens. Elas conseguiram desenvolver bem o trabalho ao conduzir essa história visto que uma animação precisa passar muita emoção, verdade e ter alma.

Sobre o elenco de vozes temos: Simon Abkarian dando vida ao protagonista Atiq, o ator que já tem uma ampla experiência em atuação e com diversos longas e séries pela estrada, como “007 Cassino Royale” (2006), ele conseguiu efetuar um ótimo trabalho com a dublagem trazendo toda a entonação e carga emocional que o seu personagem pedia. Ao seu lado temos a atriz Hiam  Abbass como Mussarat, ela que já participou de muitos trabalhos tendo seu filme mais famoso o longa “Blade Runner 2049″ (2017), a maneira como Hiam desenvolveu o seu papel na narrativa, trouxe muita emoção e pude sentir toda a sua verdade e os sentimentos para qual a Mussarat estava vivenciando. No núcleo do jovem casal temos os atores: Swann Arlaud da produção ” Graças a Deus” (2018), como Mohsen ele faz um bom trabalho . Sua parceira de cena temos a Zita Hanrot como a Zunaira, a atriz que é conhecida por ter atuado em “Fátima”(2015), aqui ela mostra toda doçura e versatilidade, em desenvolver esse papel, algo difícil na animação é conseguir dar vida aos seus respectivos personagens e aqui graças ao trabalho da direção e da produção, os atores conseguem com muito êxito trazer ao público essas histórias.

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O roteiro escrito e desenvolvido em parcerias entre os roteiristas: Zabou Breitman que cuida também da direção, Patricia Mortagne e Sébastien Tavel que juntos cuidaram dos diálogos, roteiro e de adaptar o livro para as telonas. O árduo trabalho de adaptação de contar a história do livro ao cinema, de fato não é uma tarefa fácil, vimos diversos livros com muitos potenciais em fazerem bastante sucesso e ficar de fato bem adaptado para os cinemas, acabarem fracassando tanto na avaliação da critica como a bilheteria justamente por não ficar a altura do livro. O livro ‘As Andorinhas de Cabul’, de Yasmina Khadra eu não tive acesso a leitura, mas de acordo com os especialistas e crítica especializada a animação não só ficou bem adaptada como fez sucesso.

O enredo que conta a vida de quatro personagens em meio a cidade de Cabul, um lugar frio, cruel e perturbador onde o culto ao Deus e ao Profeta é mais importante do que um casal andar de mãos dadas na rua, e as mulheres serem objetos de descarte, seja no adultério ou em desrespeito as regras impostas pela sociedade local. A história mostra como sobreviver em meio a uma guerra sem fim, onde não se existe liberdade e o que impera e reina é o poder dos homens, isso reflete muito na vida real de tantas pessoas que vivem nessas difíceis condições no Afeganistão. As mulheres são apedrejadas em praça pública ou mortas a tiros em meio a platéia, porque as prisioneiras da cidade são um atrativo cultural, de fato um grande evento para a população.

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As famílias retratadas na animação são bem reais e mostram todo o sofrimento que percalçam suas vidas. Temos Atiq e Mussarat, um casal em meio não só da guerra diária de um casamento já falido, como também a doença que se alastra pelo corpo de sua esposa, um câncer terminal que já está avançado e irreparável, ela sofre não só pela indiferença do marido mas também pelas dores físicas e mentais as quais ela vivencia a cada dia. Ele necessita de paz dentro de casa, porque ele se sente preso a esse compromisso e em cuidar dela. Eles tem a crença em seu Deus, mas será que Ele (Deus) os abandonou em meio a tantas adversidades? No outro núcleo vemos o casal Zunaira e Mohsen, ele ao ajudar a matar uma prisioneira se sente diferente e culpado, ânsia por ter uma vida melhor ao lado de sua amada, mas passa muitas dificuldades por falta de dinheiro e trabalho. Ela por sua vez é uma jovem sonhadora que sonha em ter um futuro melhor onde possa mudar de país e ser livre, andar na rua livremente, poder beijar sem medo e sem sentir-se presa ao chadri(véu), ter uma casa de verdade e a esperança por dias melhores reina em sua mente.

A narrativa apresenta bem a realidade de Cabul, onde mulher não significa nada, o homem é mais importante que a mulher, essas atitudes beira muito ao egoismo, arrogância e machismo de adorar só a Deus e humilhar as mulheres e fazer com que elas sintam medo e inferiores ao homem. No enredo o personagem Atiq está infeliz , ele deve tudo a sua esposa, porque ela lhe deu tudo o que ele queria, mas ao mesmo tempo pensa: Será que é da vontade de Deus eu a abandonar, mesmo com toda a pressão dos amigos? Será que ele está ofendendo ao seu Deus e ao Profeta? Esse é um dos questionamentos que o longa nos passa, essa ideia de adorar ao seu Deus é significativa porque cada um tem sua religiosidade e não perder as esperanças por uma vida nova.

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Les hirondelles de Kaboul (As Andorinhas de Cabul, no título original) retrata a dura e cruel realidade de uma guerra diária pela vida. O título brasileiro reflete bem a história do filme, ao apresentar pela perspectiva dos olhos da cidade, toda a dor, sofrimento sem fim, humilhações e péssimas condições de vida. A história parte bem da premissa da esperança por ser sentir livre, feliz consigo mesmo, operar pelo que é certo e pelo o que acredita, mesmo que para isso tenha que ir contra o sistema, e infringir as regras em luta por justiça. O terceiro ato e final é uma das cenas mais emocionais, porque tem muita verdade em cenas bem realistas, perturbadoras e atemporais. De fato é uma animação voltada para o público adulto, não é pra criança assistir, por conter temas polêmicos e muita violência. Os olhos de Cabul é um longa memorável e inesquecível aos olhos de que vê.