Por Eduardo Pepe

 

“Delicada e divertida, nova temporada mantém o frescor e continua trazendo temas relevantes”

 

A primeira temporada de “Coisa Mais Linda” marcou um ponto de virada nas produções
nacionais da Netflix: foi a primeira série de drama com protagonistas femininas. Anteriormente,
apenas o drama político “O Mecanismo”, estrelado por Selton Mello, tinha sido feito no gênero
drama. “Coisa Mais Linda” falava da realidade brasileira, mas tinha conotação internacional clara,
afinal, aborda a época cultural do Rio de Janeiro mais bem sucedida internacionalmente; quando a
bossa nova ganha o mundo. Para além dessa estética atraente, era uma série permeada por dramas
femininos que denunciava assuntos importantes, como machismo e racismo, e, partir disso,
analisamos através dos dramas das personagens o que mudou (e o que não…) dos anos 60 para os
dias de hoje. Entretanto, houveram algumas reações mistas que acusavam a série de ser superficial
na abordagem e que, portanto, “não era suficiente” como empreitada da Netflix.

É injusto colocar sob uma única série as expectativas de carregar todas pautas sociais que
assolam o país. Quanto mais exigir que a abordagem em primeira tentativa seja plenamente
acessível, satisfatória e profunda. O que muitos não entenderam ou mesmo esperavam diferente é
que “Coisa Mais Linda” presa pela leveza. Mesmo que toque em assuntos importantes e pesados e o
faça com dignidade, jamais se firma muito tempo como uma série pesada . Ela tem uma abordagem
essencialmente otimista de empoderamento. Se faz isso sem negar as desigualdades do mundo,
melhor ainda. E consegue.

Foto Divulgação Netflix

Nessa segunda temporada, o clima se mantém: assuntos como feminicídio, machismo
estrutural e racismo permeiam toda a trama, mas o clima é, no geral, alegre. A música, a liberdade
das mulheres e a força que elas têm para reagir e contornar a tudo está sempre presente. A trama
acaba exatamente onde a primeira parou: os tiros dados por Augusto (Gustavo Vaz) em sua esposa
Ligia (Fernanda Vasconcellos) e a melhor amiga dela; Maria Luiza (Maria Casadevall).
Não é possível dar mais detalhes da trama sem fornecer spoilers, mas resta dizer que as
personagens principais permaneceram rodeadas de conflitos amorosos, profissionais e pessoais na
medida que lutam para conseguir sua autonomia e reconhecimento em meio a conservadora
sociedade brasileira. E, claro, o clube de música “Coisa Mais Linda”, que dá título a série,
permanece sendo um dos principais cenários e representa o ideal da série: um local de liberdade
onde as pessoas possam curtir e se expressar independente do gênero, raça ou origem. É muito
positivo como a série consegue ter um engajamento em abordar diversos assuntos importantes
inserindo tudo dentro da trama de forma natural ao colocar as personagens, por vezes, em situações de cunho histórico.

O roteiro mantém um dinamismo permeado por um humor irônico que contribui com o
clima alto-astral da série. O ritmo acelerado propõe diversas reviravoltas, que são, na maioria, das
vezes verossímeis, ainda que algumas soem um tanto quanto apresadas ou mesmo um tanto mais
fáceis do que deveriam. Entretanto, parece ser o preço para manter o clima agradável como da bossa nova, como de um samba. Mas é importante frisar que a série debate assuntos de forma sempre acessível, mas não rasa. A opção é apenas manter, sempre que possível, um clima de esperança no ar.

Foto de Divulgação Netflix

O elenco continua sendo um acerto. A maioria dos atores exibem o carisma exato para os
papéis, com destaque maior para Pathy De Jesus e Gustavo Machado, que detém o personagem
mais complexo da série. Seu Roberto ainda erra, age, por vezes, pensando em si e no lucro e, claro, não escapa de reproduzir cultura machista vez ou outra, mas não deixa de tentar acertar e admitir os erros sempre que consegue os enxergar. Machado defende o personagem com o melhor dos sorrisos e nunca o torna um “cafajeste óbvio” como poderia ser. Aliás, a menor obviedade entre os
personagens é um fator em comum para todos, sobretudo, os masculinos, que, no geral, ganham
mais camadas e se tornam mais interessantes nessa nova temporada. Novos acréscimos ao elenco,
como Alejandro Claveaux, como um radialista meio bobão, mas de bom coração, e a maior
presença dos personagens de Ícaro Silva e Larissa Nunes, também injetam um animo a mais. Esse
núcleo encabeçado por Adélia (Pathy) ganha mais corpo na temporada e se torna um dos mais
interessantes.

Todos esses elementos resultam em uma série recheada de personagens carismáticos e bens
construídos permeados tramas que falam de feminicídio, racismo e machismo sem deixar de lado
relacionamentos amoroso e conflitos familiares equilibrando tudo de maneira orgânica. Sem
dúvidas, permanece uma série saborosa, relevante e agradável.