Por Eduardo Pepe

 

Cotação: * * * (3/5 estrelas)

Apesar de excessos, série mexicana entretém abordando os pesares, os tabus e as confusões da adolescência

 

Na esteira do sucesso de séries adolescentes como 13 Reassons Whye Elite”, ambas da própria Netlfix, e Euphoria, da HBO, que tratam da adolescência sem filtros abordando diretamente assuntos como depressão, drogas, abuso sexual e todo tipo de problema que um adolescente pode passar durante o ensino médio, chega a mais nova produção mexicana da Netflix, “Control Z. O título é pomposo. Seria uma tentativa de fazer um retrato de toda uma geração em uma série com apelo juvenil. Apesar do título pretensioso, a série, em sua execução, até que é simples e eficiente.

A trama gira em torno de adolescentes em um colégio caro. Somos inicialmente apresentados a todos os personagens estudantes, que basicamente são protótipos que já conhecemos, como a patricinha, Natália (Maracena García), o galinha da escola, Pablo (Andres Baida), o que mais sofre bullying, Luis (Luis Curiel) e a esquisita, Sofía (Ana Valeria Becerril), que é a protagonista. Sofia saiu recentemente de um clínica psiquiátrica e apresenta comportamentos auto-destrutivos que só vamos entender de onde vêm com o tempo.

@Divulgação Netflix

O mote principal é: todos ali escondem um segredo e um hacker começa a ameaçar alguns dos estudantes a revelar os seus segredos. Claro que o primeiro segredo revelado é só o começo de uma série de maus entendidos, acusações e consequências que vão percorrer toda a série. Sofia, ao lado do recém chegado aluno, Javier (Michael Ronda), filho de um jogador de futebol milionário, saem na linha de frente para descobrir quem é esse hacker. A investigações deles pauta praticamente toda a trama.

O maior acerto da série são os ganchos de cada fim de episódio. Todos os episódios acabam de maneira abrupta após revelar um fator surpresa que intriga o espectador. Isso confere a série um ritmo dinâmico impressionante. É uma série claramente feita para ser maratonada. Esse apelo deve ser o suficiente para conquistar uma sólida base de fãs. Outro acerto é o elenco, todo formado por atores realmente jovens e com caras comuns. Enxergamos ali realmente adolescentes de ensino médio e não atores adultos disfarçados como teensfabricados. Alguns têm espinhas, outros oleosidade na pele. Em suma, parecem mesmo alunos comuns de ensino médio. E todos, sem exceção, apresentam atuações convincentes, com destaque especial para Michael Ronda, que interpreta Javier, o galã” da série, que transparece doçura e ingenuidade.

@Divulgação Netflix

Vale destacar ainda que a trama não segue uma cartilha politicamente correta. Há espaço para atitudes irresponsáveis de vários personagens, inclusive, do diretor da escola, Quintanilla (Rodrigo Cachero), que deveria agir com responsabilidade, mas, por vezes, fala absurdos e comete erros como qualquer um dos alunos. E o mais bacana de tudo é que ele não é um vilão nem tão pouco um herói. Ele é um adulto com qualidades e defeitos, interesses pessoais e profissionais, responsabilidades e deveres, e, no meio de tudo isso, ele nem sempre age da melhor maneira. Ponto também para o ator Rodrigo Cachero, que faz uma construção equilibrada do personagem. Ele colabora inclusive para alguns momentos ácidos e irônicos da série, que rendem alguns dos melhores momentos da temporada. A presença da personagem transexual Isabela interpretada por Zion Moreno, que é transexual na vida real, merece destaque por ser abordada com tom de denúncia, mas sem sensacionalismo ou resumir a personagem  apenas a essa questão.

Entretanto, a primeira temporada apresenta falhas que, por vezes, escondem as qualidades da série. O maior erro é exagero no desenrolar da trama. Tudo é extremamente carregado. A direção confunde recursos visuais carregados e artificiais com modernidade” em tentativas, por vezes, pífias de criar suspense e parecer conectado as nova tecnologias e linguagem dos jovens. O resultado se mostra, por vezes, uma linguagem poluída visualmente e confusa na captação de momentos chaves. Fica evidente, por exemplo, na cena de briga em frente a escola. A cena é filmada cheia de cortes excessivos e uma filmagem inclui câmera na mão, câmera lenta e câmera subjetiva. Os recursos mais confundem e poluem a cena do que intensificam a tensão, que já está presente naturalmente pela construção feita pela trama. Essa necessidade de carregar as tintas se resvala para os personagens, que, por vezes, agem de maneira muito exagerada, resultando em situações over.

@Divulgação Netflix

Outro ponto questionável são os mistérios da trama. Se por um lado, tudo é costurado de maneira eficiente e, inclusive, explica passagens que pareciam soluções fáceis de roteiro, por outro lado, todo o segredo da protagonista é extremamente fácil de se deduzir bem antes de ser revelado. A identidade do Hacker, principal motor da trama, também não é das mais inusitadas, mas toda a construção de motivação e a forma como foi feito a captação dos segredos e todo o processo de vingança e chantagem é feito de maneira bem arquitetada. Outro ponto a se levantar é mais de perplexidadedo que propriamente um elogiou ou crítica: apesar da escola ser de alto luxo e para a elite, a quantidade de absurdos que acontece dentro da escola beira ao surreal. Existe uma quantidade enorme de salas abertas e vazias que rolam todo tipo de infração as regras da escola e até mesmo da lei. A pior delas acontece em uma cena chave no auditório da escola envolvendo um comportamento do diretor da escola. A cena é um absurdo completo.  

Entre erros e acertos, “Control Zapresenta os ingredientes para angariar uma leva de fãs jovens ávidos por tramas mirabolantes que refletem de maneira megalomaníaca a realidade da geração. Graças ao ritmo acelerado, as boas sacadas irônicas, as volumosas reviravoltas, os temas tabus que a série aborda, o saldo é positivo e tem tudo para gerar uma boa segunda temporada, já confirmada. Entretanto, para ser mais que um entretenimento eficiente e superar a concorrência, mudanças significativas devem ser feitas no roteiro e na direção, sobretudo, na gama demasiada pelo exagerado e pelo excesso.