Por Eduardo Pepe 

Cotação: ⭐️⭐️⭐️

Passada nos bastidores de Hollywood durante o pós Segunda Guerra, mini-Série re-escreve o passado para falar sobre inclusão

Ryan Murphy, um dos maiores produtores de séries do momento, é um aficionado pela época de Ouro de Hollywood. Isso rendeu uma excelente mini-série para o canal FX chamada Feud” (2017), que aborda a rivalidade de duas atrizes que estão entre as maiores estrela que o cinema já teve; Bette Davis e Joan Crawford. Ele usou essa história para abordar como a indústria do cinema é cruel com mulheres, especialmente, mulheres mais velhas e, inclusive, como ela incentiva a rivalidade entre mulheres. Nesse caso, Murphy mostrava a realidade a denunciando, com poucas liberdades artísticas em relação ao que realmente aconteceu.

No caso de Hollywood, que continua a parceria de Murphy com a Netflix, iniciada com The Politician” (2019-presente), ele vai um pouco além. Começa contando uma história, em parte, verídica mostrando o inicio de carreira do ator Rock Hudson (Jake Picking) e sua dificuldade de adaptar a Hollywood, sobretudo, por ter que esconder sua homosexualidade. No meio disso, a série traz personagens fictícios simbolizando a opressão em Hollywood em algum nível, como Camille Washington (Laura Harrier), uma atriz negra que luta para conseguir papeis que vão além de empregadas domésticas estereotipadas, Archie Coleman (Jeremy Pope), um roteirista negro e homossexual que tenta ser contratado por um estúdio, e Jack Costello (David Corenswet), um ator inexperiente que consegue oportunidade de trabalho desde que aceite os assédios de seu agente, Henry Willson (Jim Parssons). Alguns desses e outros personagens são inspirados em pessoas reais. Entretanto, conforme a trama avança envolvendo a realização de um filme chamado Pego que tinha base na realidade se transforma em pura invenção. A intenção de Ryan Murphy é reconstruir o passado para jogar uma lupa nas diversas discriminações e injustiças que existiam (e ainda existem) na indústria do cinema para colocar o espectador para pensar no que aconteceria se as minorias oprimidas se juntassem para desafiar a lógica opressora dominante. O resultado é agridoce.

@Divulgação Netflix

De fato, a série consegue tocar em diversos assuntos e promover debates importantes em temas como machismo, racismo, xenofobia, homofobia e assédio sexual e psicológico em suas mais variadas formas. Além do mais, a série joga luz para casos importantes, como da atriz Anna May Wong (interpretada por Michelle Krusiec na série), estrela de Hollywood que foi relegada a papeis coadjuvantes por causa de sua etnia chinesa. Entretanto, na ânsia de querer dar uma mensagem positiva de esperança e apoio a militância, Murphy acaba pesando a mão e perdendo a verosimilhança. Não apenas os desdobramentos da série parecem ingênuos, como eles são resolvidos, por vezes, de forma apressada, com resoluções fáceis demais. Além do mais, o roteiro não economiza em nada e evita todo tipo de sutileza em seus temas e diálogos, que em alguns momentos soam didáticos demais. Sem falar na questão na problemática central: propor uma solução fácil para um problema estrutural complexo não soaria como a diminuição do problema e da luta de tantas pessoas que buscam modificar a indústria? Tantas pessoas tentaram e tentam até hoje, mas com resultados práticos em menor proporção, afinal, ainda há um longo processo para a igualdade plena.

O elenco é um dos pontos altos. Os protagonistas feitos por David Corenswet e Jake Picking são competentes, mas alguns coadjuvantes são de encher os olhos. Jim Parssons, por exemplo, como um agente assediador é um assombro. Entre o cômico ácido, o predador sexual assustador e a fragilidade emocional interna engolida, ele brilha. A grande dama do teatro Patti Lupone, como a esposa do dono de um estúdio é um luxo numa personagem que tinha tudo para cair no caricato, mas não cai devido ao equilíbrio da atriz. Outros nomes merecem destaque, como Dylan McDermott, Jeremy Pope, Darren Criss, Holland Taylor e Mira Sorvino. E ainda há a participação mais que especial de Queen Latifah, como a atriz Hattie McDaniel, a primeira negra a vencer o Oscar (por E O Vento Levou…”).

@Divulgação Netflix

Em seu retrato de época e dos bastidores do cinema americano dos anos 40, Hollywoodcertamente é uma viagem deliciosa. Quem conhece o cinema da época, ainda se deliciara com diversas referências e reconstrução de época luxuosa. Como entretenimento, certamente, é eficaz, principalmente, para os fãs de bastidores e os amantes de filmes de época.  Como registro e análise de uma era, com sua abordagem narrativa não afeita a sutilezas e sua ambição revisionista, a mini-série, certamente, gerará debates e isso é sempre positivo, independente da conclusão que cada um obtenha. E isso, por si só, já é um mérito.