Por Eduardo Pepe

 

“Sátira política foge do óbvio e tem sacadas inteligentes, mas não pode ser levada muito a sério”

Ryan Murphy, criador e produtor de televisão, já tinha feito conotações políticas na sétima temporada de “American Horror Story” na temporada de sub-título “Cult”, de 2017, em que fazia um retrato da polarização política dos Estados Unidos a partir da eleição de Donald Trump, mas, claro, o fazia dentro da proposta da série: o terror. Em “The Politician”, ele novamente se dedica a questões explicitamente políticas, mas opta por uma abordagem que foge do óbvio. Não acompanhamos um senador, um candidato a presidência ou qualquer outro político importante e, sim, Payton Hobart (Ben Platt), um estudante ambicioso no final de seu ensino médio que já tem ambições políticas claras e tenta sedimentar o caminho para o sucesso. Começamos a acompanha-lo quando ele está concorrendo para presidente do corpo estudantil e tenta garantir uma vaga em Harvard.

A série tem um tom bem peculiar. Ela passa longe de ser um drama, mas também não se enquadra como um sitcom em seu formato tradicional. É uma sátira política, portanto, recheada de acidez, ironia e tiradas cômicas, mas também mantém um pé firme no drama. Também não renega as origens de Murphy de séries como “Screen Queens” e “Glee” com doses fortes de surrealismo aqui e ali. Portanto, definitivamente, não é para todos os gostos.

Foto Divulgação Netflix

Há, principalmente, dois tipos de humor predominante. Um é a grande força da série, que é o humor ácido que ironiza aspectos sócio-culturais e políticos. E outro é um humor estilizado banhado no surrealismo, que, por vezes, soa deslocado ou mesmo gratuito. O roteiro adora cacoetes estranhos e maneirismos exóticos em determinados personagens e situações que beiram ao gratuito. A depender do contexto funciona, mas apenas quando não é o cacoete pelo cacoete e, sim, quando acrescenta a trama. Portanto, é um criativo surrealismo que, às vezes, recai para a artificialidade.

Equilibrando essa irregularidade estão os bons diálogos. Eles têm um rigor e um dinamismo que exala criatividade e a trama ganha força quando se mostra engenhosa subvertendo seu formato. O quinto episódio, intitulado “o eleitor”, é o melhor exemplo disso. Ele muda de perceptiva e o protagonista da história para abordar o outro lado da moeda do jogo político: quem decide uma eleição; o cidadão comum. É um episódio que beira ao brilhantismo. Por mais que se utilize de alguns estereótipos, realiza um registro divertido, ácido e bastante relevante sobre a apatia política a partir de como o debate político chega para o cidadão de forma desumanizada e desconectada de sua realidade. É um claro aceno sobre a baixa participação eleitoral nas eleições presidenciais americanas de 2016. Outro acerto são as passagens históricas da política americana  que são inseridas na trama de forma criativa e contribuem de maneira rica a narrativa. Um forte acerto também reside nos ganchos entre os episódios; sempre instigantes e bem construídos, o que possibilita um ritmo dinâmico. 

Foto de Divulgação Netflix

O personagem principal, Payton Hobart, é o mais interessante e complexo da série de longe, sobretudo, sua relação com River (David Corenswet). Ajuda muito a composição equilibrada de Ben Platt, mais conhecido por suas atuações na Broadway. Entretanto, os coadjuvantes são irregulares. Apesar de ter várias mulheres com papéis relevantes, nem todas soam realmente inspiradas. A que mais se destaca é Georgina Hobart, interpretada com um charmoso humor discreto pela vencedora do Oscar Gwyneth Paltrow, a mãe do protagonista. A construção de sua personagem é das mais instigantes e certamente renderia uma série própria. O único porém de seu núcleo é a presença da colega de cena Martina Navratilova, em uma composição incompreensível. Sua atuação é gélida e artificial em uma personagem que, em tesa, reconecta a personagem de Paltrow com a realidade e o amor.

A trama sobre uma menina com câncer e sua avó abusiva é claramente uma paródia da história de Gypsy e Dee Dee Blanchard. Mas Murphy deu azar, pois meses antes a mini-série “The Act” saiu focando exclusivamente nesse assombroso caso real. E, na comparação, esse núcleo perde. Dentro desse núcleo, a sempre ótima Jessica Lange não se destaca tanto por ser uma participação menor e uma personagem que parece uma reciclagem menos impactante da persona que ela construiu ao longo das temporadas que participou de “American Horror Story”.

Foto de Divulgação Netflix

A namorada do protagonista, Alice (Julia Schlaepfer), funciona como uma espécie de robô obcecado e impiedoso na maior parte do tempo, o que pouco convence e atrapalha que seu relacionamento com o protagonista provoque emoções no público. Muito mais impactante é a relação que o protagonista compõe com River (David Corenswet), num misto de cumplicidade, culpa e desejos reprimidos. Sem falar que a química entre os atores transborda em cena. Lucy Boynton, que faz a rival do protagonista, até convence e a personagem possibilita discussões, mas a construção do roteiro da personagem carece de profundidade para sair do estereótipo. 

Vale ressaltar ainda que há um grande valor simbólico a presença do ator Theo Germaine, que é transexual, interpretando um papel importante na trama, como membro do staff político do protagonista, e sua condição de transexual não é relevante dentro da trama. Há também espaço para a quase chanchada. Um exemplo clássico de paródia reside nos irmãos gêmeos do protagonista, interpretados pelos irmãos Trevor e Trey Eason, que são, basicamente, o estereótipo da dupla de gêmeos ricos, mimados, bonitos e burros. Muito burros.

Foto de Divulgação Netflix

O ritmo acelerado da série só é ameaçado no momento “pós-eleição”, especificamente, no sexto episódio. Nele, a trama parece se esticar um pouco mais do que deveria até surgir um novo conflito central, mas quando surge, na metade sétimo episódio, a série retorna com grande força total e o oitavo episódio, que é praticamente um interlúdio da segunda temporada, apresenta uma nova trama extremamente promissora. Muito por causa das adições ao elenco: Judith Light e Bette Midler , duas grandes atrizes que chegam trazendo energia na reta final.

Algumas reviravoltas próximas próximas a conclusão da temporada, sobretudo, envolvendo o núcleo do ator Bob Balaban, que interpreta o pai do protagonista, enfraquece um pouco o saldo por serem plot twists com justificavas fracas. Soam apenas como desculpas mal formuladas para jogar o protagonista em um novo conflito. A confissão de uma tentativa de assassinato próximo ao final também soa como mera conveniência de roteiro. Em suma, “The Politician” é uma série inteligente e instigante que acerta em cheio na sátira política, mas que se mostra um tanto irregular em outros alvos.