Por Eduardo Pepe

 

Filme cult de diretor coreano vencedor do Oscar, baseado em uma HQ, vira série na Netflix

 

Antes mesmo de ganhar o Oscar de Melhor Filme pelo mega-sucesso “Parasita”, o diretor sul-coreano Bong Joon-Ho já tinha realizado alguns filmes nos Estados Unidos. Um deles, “OKJA (2017), em parceria com a própria Netflix. Mas não é o caso de “Expresso do Amanhã” (2013), que não chegou a ser um grande sucesso comercial, mas foi bem recebido por público e crítica e se tornou objeto de culto. Se tratava de uma adaptação da HQ francesa “Le Transperceneige”, lançada originalmente em 1982 e escrita por Jacques Lob e Jean-Marc Rochette.

 

A trama é uma distopia: o planeta Terra sofreu inúmeras consequências  por causa do aquecimento global. Então, cientistas tentaram reverter a situação. O resultado foi catastrófico: uma era glacial se instala se tornando extremamente difícil a vida nessas condições. Com isso, as pessoas mais ricas vão viver em um trem, com 1001 vagões, que obtém as melhores coisas que sobraram na Terra e com uma temperatura agradável artificialmente mantida. Claro que por tudo ser extremamente contado e controlado, é apenas para pessoas seletas. Portanto, é dividido em classes, indo basicamente dos riquíssimos até ao que podemos chamar de classe média. Entretanto, os poucos sobreviventes que vivem no lado de fora expostos a condições miseráveis tentam invadir o trem. Muitos não conseguem, outros morrem, mas alguns poucos entram. Entretanto, não tem vida fácil. Ficam relegados ao último vagão, com pouquíssima comida e condições de espaço e higiene extremamente limitados. Os membros desse setor são os protagonistas do filme. E também são da série, que parte da mesma premissa. Portanto, não se trata de uma continuação ou spin-off. É uma nova adaptação da HQ. Agora, para o formato de série.

@Divulgação Netflix

Os personagens não são exatamente os mesmos, mas seguem basicamente a mesma toada. Sai Tilda Swinton como a “chefe mor” do trem e entra Jennifer Connelly. No lugar de Chris Evans como o líder do movimento de rebelião dos membros do último vagão temos Daveed Diggs, velho conhecido da Netflix pelas séries “Unbreakable Kimmy Schmidt” e “The Get Down”. O ponto de partida da série é a necessidade de um detetive para investigar um assassinato que ocorreu em um dos vagões da primeira classe. Com a ausência de detetive nos vagões privilegiados, eles entram em contato e pedem ajuda a Andre Layton (Daveed Diggs), membro da última classe. Em paralelo, as tensões aumentam no último vagão quando um dos membros se mata impulsionando a vontade do grupo de tentar a revolução na base da violência o mais rápido possível.

 

Embora com menos estrelas, o elenco do filme não decepciona sendo todo coeso e bem escalado. É um acerto, por exemplo, que a vilã seja feita em uma composição totalmente diferente da feita no filme por Tilda Swinton, que era cheia de maneirismos e excentricidades. Connelly opta por um tom sóbrio de aparência doce e fria. Não sabemos o que realmente passa por sua cabeça ou os segredos que esconde. 

 

Apesar de manter uma estética estilizada, com cada vagão tendo uma composição visual chamativa e diferente, e o elenco multi étnico de vários países, a série não tem a mesma excentricidade do filme, que tinha uma gama de personagens e passagens estranhas com, de fato, uma abordagem de uma graphic novel. A série opta por um tom mais sóbrio, tecnológico, mais comum em distopias e projetos americanos. Afinal, essa nova adaptação não tem o dedo do premiado diretor sul-coreano. Isso não impede que o trabalho de direção seja competente e a produção exuberante.

@Divulgação Netflix

Com violência gráfica e alguma nudez, a série ganhou classificação indicativa de 18 anos, mas está longe de ser tão pesada quanto essa marca dar entender. Trata-se de uma distopia de ação  e aventura com claras metáforas políticas e sociais e com direcionamento tanto para jovens quanto para adultos. Os fãs do estilo e de filmes como “Jogos Vorazes” e séries como “3%” não devem se decepcionar. Em tempos de isolamento social, uma trama distópica em que todos os personagens estão presos em um trem, o apelo é evidente e oportuno. 

 

A série está disponível na Netflix. Diferente do que faz normalmente, os episódios estão sendo disponibilizadas um por semana. Dois já estão disponíveis. A primeira temporada contém 10 episódios. Uma segunda temporada está planejada para ser lançada no ano que vem.