Por Alysson Melo

 

 

Nos últimos anos temos visto cada vez mais produções que mostram o real cotidiano da vida, aqui mostradas como ficção mas com um teor de realidade. O longa “Três Verôes” é o mais novo filme dirigido pela Sandra Kogut (a mesma que dirigiu “Campo Grande” de 2015). Esse filme nasceu no desejo de apresentar sobre a classe rica e pobre e na relação entre patrões e empregados. A estréia estava programada para março nos cinemas, quando teve início da pandemia do covid-19 e tendo a sua estréia comprometida e adiada. Além de ter participado de vários festivais pelo Brasil como Mostra Internacional de cinema de São Paulo e o Festival do Rio. Teve sua passagem pelo mundo, onde teve sua estréia mundial foi no Festival de Toronto e Antalya Golden Orange Film Festival, na Turquia, onde deu a Regina Casé dois prêmios de Melhor Atriz por seu papel. Em agosto estreou em 91 salas na França, após a reabertura dos cinemas francesas em junho, e também foi lançado na Espanha, na Itália, na Holanda e na Polônia. E agora estará chegando em formato digital tanto para aluguel como terá uma estréia exclusiva pelo Telecine, em setembro de 2020. Com coprodução da Gloria Films, Globo Filmes, Canal Brasil e Telecine. E com distribuição da Vitrine Filmes. O público poderá conferir após 5 meses do seu lançamento original e se aventurar nas aventuras de Madá (interpretada pela Regina Casé) e grande elenco.

No período de três anos vemos a história de Madá (Regina Casé), uma espécie de governanta da família do casal Edgar(Otávio Muller) e Marta(Gisele Fróes) se desenrolar entre o Natal e o Ano Novo, em uma incrível mansão à beira mar. No ano de 2015 vemos uma família reunida fazendo festas de fim de ano com tudo o que se tem direito, desde a ilustre convidados e boa ceia farta para celebrar as festividades de final de ano de uma tradicional vida de ricos. Em 2016 a festas são canceladas e é onde vemos tudo desmoronar na vida deles e nas pessoas a sua volta. O que fazer quando tudo na sua vida vai por água abaixo? E seus planos são interrompidos por causa de outras pessoas? A protagonista terá que lutar junto com os seus colegas de trabalho e o patriarca da família a ir atrás dos seus direitos, para reaver o que é deles por direito. Eles foram vítimas dessa sociedade que faz de tudo para se dar bem, mesmo que possa estar prejudicando pessoas inocentes. Esses trabalhadores terão que viver dia após dia na busca por uma vida melhor e digna de se viver.

Divulgação Vitrine Filmes

A direção a cargo de Sandra Kogut(Campo Grande), esse é o seu terceiro longa de ficção, e assim como os seus longas anteriores, Ela gosta de abordar o tema cotidianos da vida real, mostrar a realidade dos fatos e as experiências obtidas pelo decorrer do caminho. Sandra conseguiu trazer um trabalho bem autoral, onde apresenta uma história que está ocorrendo muito pelo Brasil afora, de forma bem clara, objetiva e especial. Sua direção é forte e contida, busca obter dos seus personagens um apelo com o grande público a dar bastante atenção aos detalhes, conversas e realismo nas cenas. Ela usa de artifícios para que seus atores busquem a essência dos seus personagens de forma que ali enxerguemos de verdade a história que ela quer contar, que possa se conectar com o expectador e isso é uma característica da cineasta, que mais uma vez prova que está indo pelo caminho certo rumo a trabalhos cada vez melhores e maduros.

A atriz Regina Casé cada vez mais vem provando que é uma boa atriz de verdade, após o sucesso que teve com “Que Horas Ela Volta” de 2015. Aqui ela traz mais uma personagem que até possui características parecidas com Val, mas elas são bem diferentes e distintas. A personagem aqui personificada por ela, é alegre, forte e decidida. Regina conseguiu montar de forma linda e amável. Casé tem uma energia boa e apresenta um papel que muitas pessoas irão se identificar, com muito carisma e personalidade que a faz brilhar nas telonas. Em três verões conseguimos enxergar a protagonista de forma muito realista e da vida real, graças ao trabalho em conjunto com a produção, diretora e elenco. E por falar em elenco, temos um time primoroso dando graças nessa história. Fazendo parceria com a estrela do filme, temos a Jéssica Ellen que faz uma dobradinha, no papel da Vanessa, tendo atuando juntas na novela “Amor de Mãe” em que fazem mãe e filha. Elas possuem uma ótima química juntas. As filmagens do filme foram realizadas antes da novela, mas desde já as atrizes formaram uma boa dupla e que o resultado, pode ser visto nas telas. Completando o elenco, nos destaques temos as participações de Gisele Fróes como Marta, Daniel Rangel como Luca o filho deles e Otávio Muller como Edgar. Eles tem pouco tempo em tela mas que trouxeram boas atuações em suas cenas. Quem rouba a cena de verdade é o ator Rogério Fróes que vive o personagem Lira , vivendo o pai do Edgar, ele traz ótimos momentos nesse papel e junto com a Madá formaram uma boa amizade na narrativa que é lindo de se ver e acompanhar.

Divulgação Vitrine Filmes

O roteiro ficou a cargo de uma parceria da Sandra Kogut e da Iana Cossoy Paro, (que possui poucos filmes no currículo como roteirista). A história nos leva a um mundo real onde trabalhadores, pessoas que são praticamente invisíveis dentro de uma parábola onde os ricos possuem voz e poder e a classe trabalhista é inferiorizada por seus patrões e por uma sociedade onde os pobres não tem vez. A narrativa mostra todos os fragmentos de um Brasil desonesto e imparcial, ao trazer uma família em derrocada por lances políticos. Em um primeiro momento observamos toda a vida luxuosa desses familiares, com muita ostentação, festas e glamour. E no momento seguinte após 1 ano somos apresentados a dilema político onde causa a destruturação desse casal e as pessoas em seu entorno. O enredo mostra bem a realidade de muitas famílias brasileiras que tem suas vidas abaladas e destruídas por chefes de família, políticos e patrões que prometem e não cumprem bem suas promessas. Desde a questões de melhores salários, a melhores condições de vida desses seus funcionários.

A narrativa enfoca a vida desses profissionais que tiveram suas vidas abaladas e tentam dar a volta por cima. É um olhar delicado, sincero e singelo sobre esses figurantes da vida real, que não aparecem em videos, fotos e viagens. É dessas pessoas que o longa fala, de como a vida dessas pessoas desmorona, todos os seus sonhos, planos, desejos e aspirações são interrompidos e tendo a esperança por uma vida melhor indo embora. Madá mora nessa mansão assim como os seu colegas e ela acaba tendo uma vida de dona de casa, mesmo sem ser a sua pretensão inicial. Ela acaba se tornando uma chefe dos empregados, os ajudando, e os auxiliando a terem os seus direitos legalizados e rumo por serem retratados pela justiça, para reaver todos os seus benefícios obstruídos por atitudes de seus patrões, se tornando vítimas deles. A fotografia é muito bonita, com cores em contraste com tons de brilho e opacas, boa parte em planos abertos, bem iluminados e ao ar livre. A trilha sonora é bem encaixada com músicas que se conectam com a história e sem adequaram bem dentro da narrativa.

Divulgação Vitrine Filmes

O chefe da família Edgar é um político que roubou e foi descoberto e tem os seus bens bloqueados pela justiça, tendo anteriormente ter esbanjado em festas e em comemoração de bodas de casamento, mostrando um contraste entre a classe rica e a pobre trabalhadora. Sua mulher foi morar com o filho que já morava em Los Angeles e lá pôde continuar tendo a vida boa ao lado do filho. Em contrapartida no Brasil a Madá mesmo com tudo de desastre que está acontecendo em suas vidas, ela sempre procura ver o lado bom das coisas, e sempre está esperançosa por ter de volta o que é seu. Ela é divertida, sempre sorridente, não se abala com tanta facilidade, mas tem seus momentos de tristeza e preocupações. Ela tinha esse sonho de ser dona de um quiosque, mas que seu desejo foi interrompido por culpa de seu patrão Edgar.  A Sua relação com seus colegas vai mudando, de forma que todos vão se unindo por um único propósito, terem suas vidas de volta. Todos estão esperançosos e criam um elo que os une e os deixam mais forte. Eles buscam nela a força que eles precisam para continuar, sempre tentando contagiar os outros ao seu redor, mesmo com todos os problemas e adversidades ao seu redor. Mesmo após anos de trabalho árduo, eles conseguem ter dias melhores e um pouco de lazer, seja passear com turistas em uma embarcação, a uma festa na piscina com direito a comidas e drinks. São pequenas coisas mas, que faz com que essa classe possa ter um pouco de dignidade e felicidades momentâneas e passageiras.

Três Verões mostra com sensibilidade que pessoas invisíveis e figurantes dentro de uma sociedade rica e majoritária que eles devem ter uma vida melhor e digna de se viverem. Mesmo com tantos traumas do passado e do presente injusto e incerto. Madá é uma personagem rica de emoções, pensamentos e caráter que mesmo tendo sua vida destruída, continua a seguir em frente com suas orações, conexões e pelo que ela acredita. Tendo uma forte ligação com sua crença e as oferendas que joga nos mares e lembrar de tudo o que já perdeu e o seus parentes que já se foram. O desfecho é bonito, belo e atemporal de como a vida desses personagens e dessa família que foi unida, deve ser daqui por diante, onde os verões serão sempre alegres e com muita felicidade.